Viva seu luto

Comecei a fazer análise esse ano. Faz quatro anos que faço terapia “comum”, psicoterapia, mas esse ano comecei a fazer psicanálise. Está sendo um processo muito interessante, intenso e… doloroso.

A psicanalista fez um comparativo para me explicar a diferença entre os tratamentos. Se você vai ao médico porque rói unha, por exemplo. O psiquiatra vai te dar uma medicação para que você fique menos ansioso, e consequentemente roa menos unha. A psicoterapia vai te falar como é ruim roer unha, né, e as pessoas acham meio feio, então você não deveria roer unha, vamos parar de roer unha ok? E a psicanálise vai no fundo da questão, procurar por que você anda tão ansioso, para resolver isso e você parar de roer unha.

Parece lindo e maravilhoso, mas na prática é intenso, dolorido e bem efetivo. Eu já queria algo nesse sentido pra mim faz tempo: algo que me colocasse no controle de mim mesma, me entendesse profundamente e me ajudasse a evoluir emocionalmente. Nem o yoga nem a psicoterapia têm tanto poder disso quanto a análise.

(Ainda tomo remédios, mas meu psiquiatra está deixando beeeem a desejar então acho que vou trocar. Acho que minhas químicas estão todas fora de lugar.)

Enfim.

Nessas conversas com a analista ela foi me ensinando como a gente sente as dores errado. Digo, a gente sempre tenta afastar quando dói né? Quando você queima o dedo, antes de você saber que tá queimando você já contraiu o braço. Com dor emocional é a mesma coisa, principalmente com coisa que você acha meio boba. Por exemplo, se você foi ao banheiro da empresa e faltou água; e você teve de avisar pra todo mundo no chat que bem, algo deu errado; e você tem de subir escadas na frente de todo mundo com baldes de água para fazer as vezes da descarga. Isso tudo é só um grande “poxa, acontece. que bobagem ficar triste por isso. que besteira” e você ignora que aconteceu. Mas por dentro aquilo tem um peso enorme pra ti (digamos que você foi ensinada que não pode usar o banheiro fora de casa porque suas necessidades são as piores do mundo todo) que tu evita sentir. E depois volta tudo junto.

pain

A analista também me explicou que toda perda é uma dor. E perda não é sobre dinheiro ou mesmo oportunidades. Todas as vezes que você queria fazer uma coisa e não conseguiu, aquilo é uma perda: desde estar sem trocado pra comprar um bombom depois do almoço até a morte de um parente. Só que as pessoas de fora que mandam na sua tristeza. Se você perde um parente, que às vezes você nem gostava muito ou mesmo detestava, você TEM de ficar triste. E mesmo que você esteja na pior das TPMs e seu dia foi uma bosta, não poder comprar um bombom não justifica tristeza.

Acontece que as pessoas de fora não sabem nada sobre você. E elas estão erradas.

Então você precisa de um período de “luto” para todas as perdas que você tem, mesmo as que te dizem que são pequenas. Luto não de ficar de preto; luto de sentir aquela dor, aquela perda, falar sobre aquilo, esgotar toda a dor e seguir em frente.

A gente não faz isso. A gente diz “ok foi só uma besteira, deixa pra lá”. A gente precisa ser feliz o tempo inteiro: “não fica assim”, “isso passa”, “mas não foi nada”. Só que os lutos não sentidos vão se aglutinando dentro de ti, e você acaba tendo um coágulo, uma trombose de tristezas: a depressão.

(Nem sempre, mas) às vezes a depressão é uma dor enorme sem sentido porque todas aquelas pequenas dores se transformaram num grande monstro da dor e você já não sabe mais porque ele está ali, daonde ele veio, como que isso aconteceu.

Voltei a fazer terapia porque eu estava com flashs bem desconfortáveis. Eu tava de boas de repente lembrava de uma situação embaraçosa do passado. Aquilo fazia eu me sentir péssima, acabava com a minha auto-estima e eu continuava dizendo “pff que bobagem, Marta, faz anos isso” e eles continuavam voltando. Aí com essa conversa toda, fui instruida a curtir o meu luto. Cada vez que um flash voltava, eu sentia profundamente a dor que precisava sentir.

Fiquei duas semanas bem introspectiva, meio triste mesmo, mas senti. E foi se dissolvendo. E os flashs pararam de vir.

Mas aí veio o próximo desafio: sentir o luto no dia-a-dia.

Eu percebi que não tenho tempo pra isso.

Não dá pra você parar o trabalho e começar a sentir toda a tristeza e raiva e cobranças do dia. Você precisa deixar de lado e prestar atenção. Você precisa se concentrar. Você precisa fazer. Você precisa entregar resultados.

Isso porque eu moro em Florianópolis (apesar de, atipicamente, ter pego um freelance e o tempo tá bem puxado mesmo). Quando morava em SP, essa opressão é tremenda, porque além da cobrança ser maior, não tem um refúgio, a casa fica longe demais, é tudo cimento e trânsito.

Quando é que dá pra sofrer lutos tão grandes? Porque quanto mais o tempo passa, mais valor eu dou para os meus sofrimentos. Eles dóem mais, porque o dedo queima e eu deixo no fogo até a chama apagar, ou até o dedo acostumar com o calor (estou nessa fase. Acredito que no futuro vou ser capaz de apagar o fogo, talvez? Lidar com o fogo melhor? Puxar o dedo antes de queimar? Não sei).

Olhar pro mar me relaxa. Pé na areia também. Ver plantas, respirar ar puro. O yoga ajudou bastante. O exercício, a meditação, o carinho do relaxamento. Me emociono, várias vezes. De chorar de soluçar nas meditações guiadas.

Mas pra sentir o luto todo, bem, eu cheguei em casa e chorei, né. Chorei que só a porra essa semana. Chorei dos olhos ficarem inchados e senti, senti tudo que consegui.

Ajudou? Não sei.

Mas no dia seguinte eu levantei (sem conseguir abrir os olhos muito bem, rs) e segui em frente. Parece simples, parece o normal e o esperado, mas houve épocas que eu não conseguia fazer isso. Que o dia seguinte era uma continuação do grande pesadelo que foi o dia anterior. Que nada ia melhorar nunca mais.

Aos pouquinhos a gente vai se entendendo. Eu só queria compartilhar algo que a gente nunca dá muita atenção né. E faz muita diferença.

Boa sorte :).

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