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Como eles e nós lidamos com nossos defeitos

Então que fui na casa dos meus pais na páscoa e aproveitei para rever uns velhos vídeos de família que a gente tem da época que filmadora era uma coisa tão cara que a gente pegava emprestado da amiga da minha mãe. Era um bagulho enorme, de apoiar no ombro, e gravava naquelas fitas grandes de vídeo-cassete. Nosso respeito pela fita só não era maior do que pelos filmes fotográficos porque pelo menos na fita você podia regravar, mas registrar imagens se mexendo era tão importante quanto registrar imagens estáticas.

Então, não sei porque cargas d’água, minha mãe resolveu fazer um registro do meu tratamento para remoção da mancha de vinho do porto. Acho que ela pensou que o tratamento seria um sucesso e que hoje eu não teria mais mancha, então o registro serviria para me lembrar do que eu passei para valorizar o resultado.

Eu era uma gracinha desde mini-marta, e todos meus amigos podem confirmar que eu ainda falo como uma criança de nove anos. Ano que vem esse vídeo faz 20 anos e quase nada mudou. Eu engordei, a mancha está aqui (não fiz o tratamento até o fim) e o tratamento segue semelhante: queimadura que dura uma semana etc e tal.

timelineAnyways, como sempre acontece quando falo disso, acabei conhecendo mais pessoas com a mancha de vinho do porto. O Rafa é administrador da página sobre hemangioma do Facebook e veio bater papo comigo. Eu adoro quando isso acontece.

Ele me perguntou porque eu não participo mais de fóruns (o primeiro grupo sobre hemangioma no orkut fui eu que criei) e expliquei que é cansativo falar disso o tempo todo. Veja, a mancha é uma característica minha como meu cabelo loiro, meu riso fácil e minhas pernas diferentes. Nesses grupos de discussão, como a mancha é o foco da conversa, a gente fala muito disso o tempo todo e me sinto resumida a UMA das minhas características. Além disso, sou bem sintonizada com o movimento feminista e muitas vezes o que mulheres passam me deixa muito triste.

O Rafa e um outro rapaz que comentou aqui no blog têm uma relação bem saudável com a mancha. Eu chamo de saudável o famoso “tenho, grandes coisa, vida segue”. Note que não estou culpando quem ainda não se sente assim sobre isso ou qualquer outra característica fisica sua. Porque a cobrança é bem grande.

Os meninos podem falar, pois tenho certeza que já tiveram suas inseguranças. O que eu posso falar é sobre as inseguranças das meninas. Eu notei que eu tinha um medo tão grande de não arranjar namorado que minhas primeiras paixonites foram 100% inventadas. Eu precisava provar que eu ia conseguir namorar.

Eu tive muito medo que ninguém fosse me dar um emprego. Inclusive, uma moça veio falar comigo uma vez porque ela estava fazendo o tratamento e, já que estava bem queimado, ELA NÃO CONSEGUIA TRABALHAR. Todos os dias essa mulher se maqueava até esconder seu sinal de nascença porque ela é recepcionista e não pode se dar ao luxo de ter uma característica que saia do padrão. Agora olha esse moço aí na imagem ao lado, do tratamento. A galera da firma no máximo ia zoar ele um pouco e a vida ia seguir. Nada de desemprego para este rapaz.

Mães conversam desesperadas comigo sobre o desenvolvimento socio-comportamental de seus filhos e eu passo o que funcionou pra mim sem qualquer adaptação de contexto. Quem é pobre, como lida com isso? Porque se 20 anos atrás o tratamento era dois mil reais por mês (graças à anestesia geral), imagina hoje? E não só isso. Se eu fizesse o tratamento de novo, tenho certeza que seria tratada bem diferente dos meus colegas homens. E olha que passei os últimos dez anos tentando ser como um.

Enfim, só para refletir que a forma como a gente lida com as nossas coisas (ou não) é tão diferente das outras pessoas. E que a cobrança estética da mulher é tão, tão maior que a do homem. Não estou dizendo que os meninos não sofram nada. Mas eu conheci um rapaz que era desses guias de museu com uma mancha no rosto uma vez. Acho que ninguém ameaçou o emprego dele.

Se eu fosse um menino… eu teria me “apaixonado” aos dez anos, como aconteceu, ou só aos 14, quando realmente gostei de alguém? Eu teria chorado tardes e tardes porque uma médica me disse “já que o problema é estético, não mexe”, mesmo que hoje eu concorde com ela? E o tanto que eu chorei quando disseram que a Síndrome de Kipple Trenaunay poderia me dar trombose ao engravidar, e que se eu quisesse ter filhos eu teria de adotar? Quantos homens gastariam lágrimas por não poder ter um filho biológicos, versus quantas gurias?

No fim, até meu rosto é uma expressão de luta pelo direito à dignidade, à igualdade. Mesmo sendo a coisa mais comum do mundo pra mim, para muita gente não é. E a forma que “a sociedade” lida com isso diz muito sobre quem ela é. Ela é machista. O que podemos fazer para que ela vá sendo menos e menos machista, até deixar de ser?

Paradoxo Tostines da mulher no espaço de trabalho

Eu sempre acreditei que não gostava de garotas. Por dois simples motivos: 1) eu gostava de meninos e 2) gostar de garotas era, senão errado, ruim. Cresci acreditando nisso ao mesmo tempo que desejava meninas, expulsando o pensamento da minha mente tão logo ele surgia. Depois de muitos anos, uma amiga me disse “Hey, Marta, você é bi, né?”. Nessa idade eu já tinha conseguido desconstruir uma grande gama de preconceitos meus e finalmente entendi: “Num é que eu sou, menina?!”.

Foi assim que me senti lendo Faça Acontecer, da Sheryl Sandberg. A alta executiva do Facebook, ex Google, uma das poucas mulheres em altos cargos do Vale do Silício explica como é ser mãe, ter vida profissional, e porque tão poucas mulheres fazem a mesma escolha. Eu finalmente entendi que não basta ser mulher e ir lá. Isso não acontece assim.

Recebemos instruções a vida toda de como ser mulher, como devemos nos portar e até de quais cores a gente gosta, quais matérias a gente gosta na escola. O caminho do sucesso (e ela usa uma analogia muito legal: não aescada do sucesso, mas o trepa-trepa do sucesso; não é uma linha reta, mas um brinquedo cheio de possibilidades, descidas, andadas) começa a ser escrito quando somos crianças.

É muito fácil julgar uma mulher tanto por ser mãe e continuar no trabalho, quanto por não ser mãe e continuar no trabalho, quanto por ser mãe e sair do trabalho. A única opção viável é ser homem: foi isso que a gente aprendeu. Sheryl conta como ela lida com isso e, em resumo, é: com a ajuda dos homens (chefe e esposo) e sem esperar ser perfeita.

Aliás um bom resumo do livro é essa palestra que ela deu pro TED Woman:

E aí caiu minha ficha em vários pontos do meu comportamento profissional. Por exemplo, eu tenho o costume de pedir desculpas por tudo. Por o que eu chamo de atraso para responder um e-mail: “desculpa a demora”. Mas às vezes meu chefe, o cliente, eles demoram muito mais e não pedem desculpas por nada. Arrisquei e: ninguém se importou de eu ter respondido um e-mail no dia seguinte e não pedir desculpas.

Eu sou bem incisiva. Mas quando meus colegas homens erram, eu tomo o maior cuidado. Sou cheia de dedos, chamo em privado no chat, faço a crítica construtivamente: “olha da próxima vez talvez seria melhor se a gente fizesse desta outra forma” mesmo que por dentro eu esteja “caralho filha da puta, custa fazer o negócio direito, porra?!”. Em contraponto, meus colegas de repente berram PORRA MARTA VOCÊ FEZ UMA BESTEIRINHA INSIGNIFICANTE AQUI HEIN no meio da sala para todo mundo ouvir. Ninguém se importa.

Ou quando meu chefe está concentrado, ele simplesmente corta quem for e segue focado no que ele quer saber – não importa se é uma ideia maravilhosa ou se perdi dias programando algo. Mas quando eu preciso falar não, eu peço para outra pessoa falar por mim (“pergunta pro meu chefe se é ok”) ou fico até mais tarde ouvindo ladainha para não cortar ninguém e parecer grosseira. Porque, como eu sou menina, é esperado que eu seja gentil e fofa; quando eu sou incisiva, as pessoas acham que eu sou grossa.

(as pessoas acham que eu sou grossa o tempo todo e isso me pesa muito mais do que eu admito na vida real. me sinto na obrigação de ser gentil o tempo todo e falho sempre. 98% das vezes que sou grossa, não percebi que fui).

Com esse livro, caí no paradoxo do “é crocante porque é fresquinha ou é fresquinha porque é crocante?” das bolachas Tostines: as mulheres não querem chegar nas áreas de gestão ou as áreas de gestão afastam as mulheres? Porque os dados (e todo o livro da Sheryl é baseado em dados) dizem que mulheres começam equalitariamente no mercado de trabalho, mas quanto maior o cargo, menos mulheres. Elas são menos gananciosas ou elas foram ensinadas a serem assim?

Comecei a reparar quais meus comportamentos não eram necessários para mim como profissional e percebi o quanto floreava e sofria por não atender as expectativas de uma mulher em um cargo maior. Como colega, ninguém se importa; a coisa complica quando sou eu distribuindo demandas e resolvendo problemas.

Claro que isso ainda vai me afetar e não estou dizendo que este caminho é o que toda mulher deve seguir. Afinal, o feminismo prega a liberdade para a mulher fazer sua escolha e não se sentir culpada pela escolha que ela faz. Mas me decidi a arriscar porque quanto mais mulheres (e negros, gays, bissexuais, trans, etc) líderes, menos precisaremos do adjetivo. Seremos todos apenas “líderes” e não “mulheres líderes”.

E tenho menos medo (e até estou pensando!) da possibilidade de ser mãe. Entendi que não preciso escolher entre ter uma carreira e ser mãe, apesar das concessões que vou precisar fazer no dia a dia para equilibrar as coisas. Mas isso todos fazemos, né?

Ironicamente ou não o próximo livro da lista chama “Comunicação Não Violenta” e deve complementar isso tudo. Não quero ser uma escrota; é importante que as pessoas gostem de mim / de trabalhar comigo porque eu dependo delas e quero que elas se sintam confortáveis. Mas também não quero ser uma frouxa. E achar o caminho do meio é meu grande desafio.

Eu também vou de copinho

Esse post é sobre menstruação. Se você é mulher e tem nojo, me dê uma chance, porque eu também tinha; se você é homem, acho que não é pra ti (mas se quiser ler de curiosidade, fique à vontade).

Então que faz tempo já que vejo falando dos copinhos, os coletores menstruais, e eu morria de nojo. Não queria nem ouvir falar. Achava too much: até posso reciclar meu lixo, mas pedir pra usar fralda de pano quando tiver filhos e parar de usar absorvente é pedir demais. Dsclp, natureza.

Até o famoso vídeo da JoutJout eu assisti meio torcendo o nariz. As meninas no yoga falavam e eu “ai que legal por vocês mas isso não é pra mim, não”. Eu pensava: como que ia limpar aquilo durante o dia? Como que ia usar de novo um negócio já usado? Ok é sangue limpo mas: éca. Eu ia conseguir usar o banheiro ou aquilo ia sair?

Por outro lado os absorventes do mercado também não me agradavam. ODEIO aquela sensação de cataratas do Niágara cada vez que você levanta, cada vez que você espirra, cada vez que você– ARGH. Os absorventes de calcinha sempre vazam, uso o noturno por uns três dias e sempre acaba me assando porque impede a transpiração.

Com o absorvente interno isso não acontece mas eu nunca sei quando é a hora de trocar e cada vez que vou fazer xixi sinto como se molhasse a cordinha, morro de nojo e preciso trocar. Fora o #2 né, que também sinto como se sujasse. E é caro! Uma caixinha não dá pra mim, precisa pelo menos duas ou três por mês.

Dizem que com o absorvente interno dá pra ir no mar/piscina mas eu nunca tentei. Morro de medo de sair pingando sangue. Enfim, nada tava bom. Lembrando que também não tenho a opção de não menstruar porque não posso tomar hormônio.

Não sei o que realmente mudou minha cabeça sobre isso tudo mas não foi uma coisa só: foram várias pessoas, vídeos, textos, eventos que aos poucos foram me fazendo refletir sobre o assunto. Aí chegou uma hora que eu resolvi tentar. Comprei um InCiclo por R$80, mas como dura uns 3 anos, o investimento se paga rapidamente.

Perguntei pro meu médico o que ele achava e ele disse: não sei. Nunca vi isso antes. Use e me conte.

Todo mundo diz que demora uns três ciclos para você realmente se acostumar com o coletor, mas eu tive muita sorte. Logo no primeiro já foi fantástico!

Antes de usar, recomenda-se ferver o coletor por 5 minutos. Eu comprei uma panelinha exclusiva para isso porque não queria usar as que eu tinha em casa (ewww). Como eu não queria ficar desesperada no primeiro dia, testei colocar e tirar antes, no banho. É aquele esquema: dobrar, inserir, pronto.

Nos primeiros dias do ciclo, deu uma vazadinha sim. Eu usei absorvente comum junto com o coletor, mas foi bem pouquinho – tipo aquele restinho quando acaba sabe? Aí é assim: você pode ficar 12h com ele. Então eu lavava de manhã, trabalhava o dia todo, voltava para casa e lavava no banho com sabonete neutro. Quando acaba o ciclo, você ferve de novo por 5 minutos e pronto, cabô.

TODOS os problemas que eu tinha por menstruar acabaram:

  • me sinto 100% segura de ir pro mar, piscina, praia, porque é de silicone e veda com vácuo, sei que não vai vazar
  • não preciso trocar no trabalho, nem levar necessair na frente de todo mundo nem me preocupar durante o dia
  • não sinto as cataratas \o/. na verdade não sinto nada.
  • não tem mais cheiro ruim no lixo do banheiro.
  • eu usei absorvente nos primeiros dias mas não usei para dormir, então não tive assaduras.
  • consigo fazer minhas necessidades, #1 e #2 sem me preocupar que o InCiclo vai cair ou sair (na verdade, para sair você precisa ajudar deixando o ar entrar, então só com a força pélvica não sai não)
  • gasto um total de zero reais 😀 e não preciso me preocupar se tem ou não absorvente em casa.

Daí entrando pro lado mais feminista and stuff, o contato com a menstruação é um barato, gente. Aquela vida em potencial, aquele pedaço de você. Todo mundo fala que menstrua menos do que esperava então eu já estava esperando menos que nos absorventes. O final também, você realmente sabe que acabou, zero pingos depois. Sem cheiro, sem problemas.

Foi uma das grandes compras que fiz em 2015 e de verdade: super recomendo. Porque ajuda a natureza também, porque não ter nojo de você mesma é importante, etc e tal, mas principalmente porque é simples, prático, eficaz e barato. Esquecer que está menstruada é viver plenamente. 10/10.

Star Trek: Voyager

Se você não sabe, Eduardo e eu gostamos muito de Star Trek. Mas um problema pra quem gosta muito de Star Trek é que não basta ver uma série ou um filme. São doze filmes, o décimo terceiro a caminho. São várias séries: TOS, TNG, DS9, VOY e ENT. Já vimos as três primeiras e terminamos a Voyager esses dias.

O que dizer dessa série que mal acabei de ver e já considero pacas?

Em Star Trek: Voyager a nave erm… Voyager… é jogada em um quadrante longe pra caralho e vai levar uns 70 anos pra voltar para o nosso quadrante. Capitã Janeway precisa trazer todo mundo de volta para casa – e não vai ser fácil, nem rápido. No caminho encontram diversas raças, muitas hostis. Mas em nenhum momento perdem a esperança de ver novamente o quadrante Alpha e nunca se esquecendo dos princípios da Federação.

Eu nem sei por onde começar a rasgar seda pra essa série.

• A capitã é uma mulher

• Ela não precisa de homem nenhum, tanto que acaba solteira e bem-resolvida

• Aliás, todas as personagens mulheres são fortes e profundas

• Volta com a ideia de exploração do espaço e é uma série muito, MUITO, M U I T O mais dinâmica que Deep Space Nine

• Os conflitos éticos são geniais

• O médico é um holograma. Hologramas são pessoas? Paradigma do Data all over again, mas ainda assim, bem interessante. Sempre cutucando a escravidão. Never forget.

• Tem o Q, várias vezes

• Tem um programa de holodeck brincando com seriados antigos de ficção cientIFICAAAAA

• Tem um volcano  

• Ou a obsessão da Janeway com café

Se você não aguentou ver DS9, não tem problema. Veja. Voyager.

AH! A Sybylla e eu escrevemos um post falando sobre as mulheres de Star Trek e tem uma parte sobre as mulheres de Voyager. Vê lá!

 

Dia da mulher de novo

Tem dois conceitos que vocês precisam botar na cabeça antes de ler esse e qualquer outro texto decente hoje:

Minoria é determinado grupo humano ou social que esteja em inferioridade numérica ou em situação de subordinação sócio-econômica, política ou cultural, em relação a outro grupo. (fonte). Ou seja, minoria não é necessariamente o grupo com menos quantidade, mas o grupo que não é dominante. Por isso mulheres são uma minoria, assim como gays, negros, etc. Não porque são menos numerosos, mas porque sofrem abusos como salários menores, violência, preconceito e por aí vai.

Feminismo não é pedir mais direitos para mulheres, é pedir direitos iguais. Se você espera que uma mulher possa ter o mesmo estudo, exercer a mesma função e receber o mesmo salário de um homem, você é feminista. Se você acha que a obrigação de cuidar da casa não é só da mulher, é feminista. Não é querer a mais. É querer igual. Porque não é igual. Porque mulheres são uma minoria.

Dito isto, sigamos.

 

Eu adoro escrever no dia da mulher. É a oportunidade perfeita para deixar alguns pontos claros que nunca se resolvem pelos anos. Veremos:

Essa semana uma programadora nova entrou na equipe. Linda e muito gentil, como toda programadora java que eu conheço. Aí chegou um cara de outra área e disse “Finalmente temos uma mulher aqui!”. Eu trabalho aqui há sete meses e minha outra colega, quase um ano. A gente nunca foi notada porque não anda toda de social? Não tem cabelo cumprido? Não tá no esteriótipo? Isso me chateia.

É muito comum trabalhar com machistas entre os programadores. Aqui mesmo, eu ainda ganho 25% menos que meu ex-colega. Antes daqui, em outro emprego, eu queria matar o estagiário porque ele só falava besteiras todos. os. dias, do tipo “mulher minha fica em casa” e tal.

Inclusive, antes eu achava fútil ficar em casa cuidando dela e dos filhos, mas hoje é algo que eu admiro e respeito. Quase invejo. O importante é que isso seja uma escolha da mulher e que ela tenha as mesmas oportunidades que o homem para conseguir realizar seus sonhos.

A luta continua.

ps.

Relendo os posts eu percebo que estou sempre numa luta contínua para me adequar ao padrão de beleza e peso que uma mulher deveria ter. Que estou sempre dizendo que sou amolecada, que gosto de andar com os meninos, que não tenho paciência para maquiagem and stuff, mas sofrendo por não ser notada como uma mulher, querendo convencer a mim mesma que está tudo bem ser assim. Eu não sei se isso faz parte da baixa auto-estima que a depressão carrega junto. Não sei se a maioria das mulheres levam esse estigma também. Mas acho que faz parte da luta. O nosso amor próprio é o que fortalece o nosso exército.

Reflexões

Eu mudei muito nos últimos meses. Sério, sou outra pessoa. E gosto mais de quem sou hoje.

O bom de ter mudado tanto é que eu era uma pessoa quase oposta ao que eu era antes e isso me torna muito tolerante. Porque eu posso não beber, mas já bebi. Não fumar, mas sinto falta, confesso. Não ser crente, mas já ter sido evangélica um dia. Posso ser vaidosa hoje, mas isso até eu estranho.

Meus preconceitos diminuem e meus horizontes aumentam.


Outro dia ouvi uma mulher no ônibus falando de como era absurdo isso de ter filhos jovem, com até 25 anos.

E que mesmo depois disso tem dores, parto, corpo deformado, gastos, responsabilidades, etc e tal.

Só que ela parecia uma adolescente repetindo o discurso da mãe desesperada pelo medo de uma gravidez precoce.

Não que deva ser muito legal ficar grávida ou que isso deva ser feito precocemente. Mas pode ser que ouvimos tanto o mesmo discurso quando mais novas que, se pá, nem é toda essa tempestade em copo d’água.


Tava falando com a Dani Pimentel sobre roupas curtas e esmaltes vermelhos, essas coisas. Como antes eu achava coisa de vadia e agora não acho nada demais.

Na verdade, com o passar do tempo, comecei a notar que chamar mulheres de vadias só porque elas são magras, bonitas, usam salto e roupa curta numa balada não faz muito sentido – além de estar com inveja por ser gordinha e descoordenada.

Só faz sentido chamar uma mulher de vadia se… se ela tem mais de um homem? Não sei, eu só sou monogâmica por ser ciumenta, não pela lógica.

Por ser prostituta? Qual o masculino de puta, go go boy? E ser go go boy tudo bem, mas ser puta é a coisa mais baixa e horrível que uma mulher pode ser?

Não que seja legal vender o corpo por dinheiro. Mas vendem a alma por qualquer trocado…

Sei lá, ainda tô digerindo essas coisas. Com a minha boca pintada de batom vermelho.

Pela família!

Todos os dias é a mesma coisa: vejo na TV uma propaganda eleitoral do Partido Social Cristão parecida com essa, me levanto e vou embora.

O problema é que, na propaganda que eu vejo – que não é essa – mostra que a “família” do PSC é um homem, uma mulher e seus filhos. E eu sinto uma exclusão dos casais homossexuais, porque eu sei que cristãos não são muito chegados na simplicidade do amor gay.

Outra coisa contra a família é o aborto. Não sei se já escrevi sobre aborto no Compulsive mas minha opinião é: eu não faria, mas gostaria de ter a liberdade de fazer. E que as pessoas que fazem tivessem a devida assistência para evitarmos, assim, mortes que acontecem pelos abortos clandestinos.

O Diário Ateísta disse que o principal empecilho para o aborto é a Igreja. Que as pessoas sempre abortaram e vão continuar abortando. Tudo pela família.

Os anticoncepcionais também travaram uma luta grande porque prejudica a família.

As mulheres demoraram décadas para sair para trabalhar (e algumas que saíram, voltaram para casa para cuidar dos filhos, como minha mãe), pela tal da família.

A “família” católica discrimina homossexuais. Prende mulheres em casa. Tira sua liberdade de escolha. Fere e mata quem ousa ir contra seus “princípios”. Tudo para ter um homem, uma mulher e filhos incontáveis que trabalham na lavoura e rezam aos domingos, só fazem sexo após o casamento e vivem um conto de fadas da idade média.

Não sei até que ponto quero manter esse tipo de família. Eu quero uma família onde todos se respeitam. Se dêem as mãos para passar pelas dificuldades. Almocem juntos aos domingos. Se divirtam com os programas na TV. Não importa a orientação sexual. Se houve um aborto. Se os jovens transam com camisinha.

Se uma família desmorona por coisas como essas, vai me desculpar, mas ela era muito fraca e sem amor.

E é sobre a mulher

Eu sei que eu já falei sobre ser mulher e sobre feminismo no blog diversas vezes e uma busca não me deixa mentir. (mas talvez você queira ver: Feliz dia da mulher, Eu não gosto de esteriótipos, Semana anti-preconceito: mulher, Tenho orgulho de quem se assume e Dia da mulher, de novo.)

Enfim, resumidamente, eu sou feminista – mas não me julgue ainda. Eu procuro manter a parcialidade e tratar as pessoas como… pessoas, simplesmente.

Antes eu achava que só os homens tratavam as mulheres mal:

É assim, cada um é cada um. Me irrita muito quando não posso dividir a conta, porque, poxa, eu gastei junto. Me irrita alguém que pense que meu lugar é no tanque depois de eu ter estudado 17 anos da minha vida. Acho absurdo alguém me desprezar porque sou mulher – como já aconteceu. “Ah, é ELA que vai cuidar do projeto?” *olhar de desdém*. Dá vontade de responder um “SIM, sou eu. Eu programo mais que esse aí que você conversou.”

Então percebi que a mídia também tinha boa parte nisso:

Pra começo de conversa, mulher sempre foi a dona-de-casa, que vai casar, ter filhos, cozinhar e achar tudo fofo. Claro que tem quem goste de brincar de boneca e casinha, mas os meninos que têm carros, e alguma profissão legal como bombeiro, cientista, mecânico. Brinquedos de meninos são mais legais e azul é uma cor muito mais bonita #prontofalei

A pior parte foi notar que existem mulheres que também contribuem para o machismo:

eu não consigo entender mulheres fúteis, ciumentas e coisas assim.

* * *

Uma coisa me motivou a escrever esse post:

Eu estava lá, na minha mesa, a única pessoa com genes XX em uma sala, trabalhando numa boa com meus fones de ouvido e eis que ouço:

– A Marta está ouvindo?

Tirei o fone ao ouvir meu nome e a pessoa completou:

– Ah, então eu falo na hora do almoço.

Era fim de ano e meu sangue ferveu. Eu virei para o indivíduo (que já não simpatizo muito) e disse

– Fica a vontade e fale o que quiser. Eu vou pra cozinha pegar um café.

E saí bufando.

Fiquei tão brava que nem falei nada pra ele, mas desabafei uns dias depois com uns amigos. Influentes. Porque eu tenho um pezinho ali em escorpião que me faz ser um cadin filhadaputa.

Então o tempo passou e, um dia, ele deu a entender que fez aquilo por respeito. Isso nem tinha me passado pela cabeça, mas na cabeça dele ele queria evitar que eu, enquanto mulher, ouvisse algo desagradável.

Hoje o episódio se repetiu. Mas agora tenho aliados que começaram a me tratar como uma pessoa de genes XY, então pararam com essa frescura.

O que me fez refletir: eu gosto de ser tratada como um menino – principalmente porque sempre estive entre eles (não pense besteira) e eles são mais divertidos, e porque eu não faço parte nem do grupo das pessoas que podem comer frango, então eu gosto quando me sinto parte de algum grupo. Eu sou meio amolecada, como vocês estão cansados de saber, mas e quem não é?

Pode ser que, muitas meninas no meu lugar, se sentiriam honradas pela “educação” do rapaz de não falar alguma coisa “feia” na presença delas. Muitas meninas gostam e acham que o homem tem a obrigação de pagar tudo em um encontro.

Mas eu ainda acho que seria tudo mais fácil se fôssemos tratados com igualdade de gênero. Tem alguma mulher aí, tem alguém aí que gosta de ser tratado diferente? “Ihh o estranho chegou”, “Ah não fala disso com ele”, “Olha, por que você não volta para seus amigos?” são grosseria.

* * *

Mais coisas a pensar

se você precisa falar longe de alguém por “respeito”, é preconceito.

Como disse o Edu.

E eu comprei uma Scientific American hoje, desse mês mesmo, e eles têm uma sessão de “viagem no tempo”

Janeiro de 1911
A Brilhante Curie
(…) nem seria preciso defender o assunto sobre a extensão dos direitos e previlégios do sexo feminino, para perceber que esta é uma mulher, que por suas realizações brilhantes, conquistou o direito de ter seu lugar junto a seus pares na Academia.”
Depois de muitas manobras políticas, foi negada a Curie uma cadeira na Academia.

São só cem anos, quatro gerações, e eu esperando que depois de todos esses séculos de opressão cultural e religiosa, me tratassem direito.

Ah vá.


Dia da mulher, de novo

Então, é mais um oito de março, mais um lindo dia da mulher, onde todos os homens da rua te dizem “parabéns” e alguns estabelecimentos/trabalhos/políticos lhe dão rosas como um pedido de desculpas por terem queimado um monte de seres humanos com genes XX em uma fábrica a 99 anos atrás.

Ano que vem serão 100 anos. Mal posso esperar pelos especiais da TV aberta.

Mas ainda os seres humanos com genes XX (e consequentemente peitos) ainda têm salários mais baixos que os com genes XY. Além de injustiças físicas naturais, como TPM, mijar sentada e celulite.

Como se não bastasse, as pobres 140 (e você pensando que eram milhares!) morreram queimadas para que as outras (agora sim, milhares) pudessem trabalhar, votar e dirigir como os homens.

E os homens disseram “Então ok, vai lá. Mas alguém tem de tomar conta da casa e das crianças”. E elas tomaram conta e se descuidaram. Então eles arranjaram outras e elas se cuidaram e…

PQPVCS!

Eu vim com a intenção de fazer um post bem #mimimi, então abri um post que escrevi em 2007 só pra ler quando chegasse nesse pedaço. Heh, não mudei muito a opinião de lá pra cá. Mas hoje eu vejo mais coisas.

Hoje parece que todas as pessoas me cobram – coisa da minha cabeça – para ser alguma coisa, para entrar em um esteriótipo. E eu não consigo.

Então virei uma mulher brother muito legal, meio desleixada, bastante nerd, que não se interessa por sapatos, bolsas e maquiagens e que está solteira.

Deve ter qualquer relação com meu peso. Ou com o fato de enjoar de maquiagem.

Deve ser porque eu não sou submissa, porque sou péssima cozinheira, porque não nasci pra ficar em casa.

Deve ser porque sustento conversas nos bares e falo de sexo e garotas gostosas com a maior naturalidade do mundo. Isso deve assustar as pessoas.

Não sei.

Na verdade eu não gosto de ser mulher. Na verdade mulher me irrita um pouco. E não é prático. E ser mulher, por si só, já engorda. É chato, sabe?

Mas eu sou, fazer o quê? Aproveito como posso. Aproveito bastante. E tá bom assim.

Parabéns pra você que é mulher de verdade: aquelas que trabalham, estudam, cuidam da casa, dos filhos, do marido e de si mesmas. Eu tentei um pouco. Mas nem consegui.

Semana anti-preconceito – Mulher

Acho o preconceito contra a mulher uma das coisas mais irritantes no mundo porque não só os homens acham isso certo, mas muitas mulheres também, por uma idéia de falso-comodismo que, não sei bem como, vem até hoje sendo repassada pelas gerações.

mulher

Estou muito orgulhosa – e é irônico dizer isso – do Manual do Cafajeste para Mulheres, que sempre bate na tecla: não seja burra! Não seja fútil! e a carta para a filha dele foi maravilhosa.

Nunca fui muito de “Eu sou feminista!” *bate no peito, tira o sutiã, queima com um isqueiro*, mas depois de conversar com a SrtaBia, percebi que sou mais do que eu achava que era.

O que ninguém percebe é que homens e mulheres são todos… pessoas. São só pessoas. Os dois lados sentem medo, choram, riem, correm, tiram fotos ou não, trabalham, jogam vídeo-game ou não, depende só do gosto de cada um. Pra mim não tem muito dessas “ela é mulher, ela pode”, “ele é homem, ele tem de sustentar a casa porque é obrigação dele”. Sinceramente, isso não tem nada a ver.

Isso também vale na hora da conquista. Não é mais fácil nem pro homem, nem pra mulher. Ah, vocês tem a “obrigação” de catar várias? Nós temos a obrigação de sermos magras, só pra começar.

E não tem também o “Você não queria direitos iguais? Carrega aí esse saco de cimento!”. For pra ajudar, claro que eu ajudo, sem frescura. Mas é óbvio que eu não tenho tanta força física quanto um marmanjo bombado. Em compensação, mato baratas com maestria, sou boa de copo e péssima com artesanato.

É assim, cada um é cada um. Me irrita muito quando não posso dividir a conta, porque, poxa, eu gastei junto. Me irrita alguém que pense que meu lugar é no tanque depois de eu ter estudado 17 anos da minha vida. Acho absurdo alguém me desprezar porque sou mulher – como já aconteceu. “Ah, é ELA que vai cuidar do projeto?” *olhar de desdém*. Dá vontade de responder um “SIM, sou eu. Eu programo mais que esse aí que você conversou.”

Mulheres são companhia. Uma companha doce, mas nem por isso burra. Uma companhia delicada, mas nem por isso fraca.

E vocês precisam da gente, meninos, como nós precisamos de vocês. Mesmo os gays e as lésbicas. Não existe motivo para ter apenas um gênero, da mesma forma que não existe apenas uma cor ou apenas um gosto nesse mundo. Precisam de nós porque nós os completamos e vocês nos completem.

Então parem de tratar os outros com inferioridade e desdém. Todos têm algo a ensinar e a aprender. Não esqueça.