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Como eles e nós lidamos com nossos defeitos

Então que fui na casa dos meus pais na páscoa e aproveitei para rever uns velhos vídeos de família que a gente tem da época que filmadora era uma coisa tão cara que a gente pegava emprestado da amiga da minha mãe. Era um bagulho enorme, de apoiar no ombro, e gravava naquelas fitas grandes de vídeo-cassete. Nosso respeito pela fita só não era maior do que pelos filmes fotográficos porque pelo menos na fita você podia regravar, mas registrar imagens se mexendo era tão importante quanto registrar imagens estáticas.

Então, não sei porque cargas d’água, minha mãe resolveu fazer um registro do meu tratamento para remoção da mancha de vinho do porto. Acho que ela pensou que o tratamento seria um sucesso e que hoje eu não teria mais mancha, então o registro serviria para me lembrar do que eu passei para valorizar o resultado.

Eu era uma gracinha desde mini-marta, e todos meus amigos podem confirmar que eu ainda falo como uma criança de nove anos. Ano que vem esse vídeo faz 20 anos e quase nada mudou. Eu engordei, a mancha está aqui (não fiz o tratamento até o fim) e o tratamento segue semelhante: queimadura que dura uma semana etc e tal.

timelineAnyways, como sempre acontece quando falo disso, acabei conhecendo mais pessoas com a mancha de vinho do porto. O Rafa é administrador da página sobre hemangioma do Facebook e veio bater papo comigo. Eu adoro quando isso acontece.

Ele me perguntou porque eu não participo mais de fóruns (o primeiro grupo sobre hemangioma no orkut fui eu que criei) e expliquei que é cansativo falar disso o tempo todo. Veja, a mancha é uma característica minha como meu cabelo loiro, meu riso fácil e minhas pernas diferentes. Nesses grupos de discussão, como a mancha é o foco da conversa, a gente fala muito disso o tempo todo e me sinto resumida a UMA das minhas características. Além disso, sou bem sintonizada com o movimento feminista e muitas vezes o que mulheres passam me deixa muito triste.

O Rafa e um outro rapaz que comentou aqui no blog têm uma relação bem saudável com a mancha. Eu chamo de saudável o famoso “tenho, grandes coisa, vida segue”. Note que não estou culpando quem ainda não se sente assim sobre isso ou qualquer outra característica fisica sua. Porque a cobrança é bem grande.

Os meninos podem falar, pois tenho certeza que já tiveram suas inseguranças. O que eu posso falar é sobre as inseguranças das meninas. Eu notei que eu tinha um medo tão grande de não arranjar namorado que minhas primeiras paixonites foram 100% inventadas. Eu precisava provar que eu ia conseguir namorar.

Eu tive muito medo que ninguém fosse me dar um emprego. Inclusive, uma moça veio falar comigo uma vez porque ela estava fazendo o tratamento e, já que estava bem queimado, ELA NÃO CONSEGUIA TRABALHAR. Todos os dias essa mulher se maqueava até esconder seu sinal de nascença porque ela é recepcionista e não pode se dar ao luxo de ter uma característica que saia do padrão. Agora olha esse moço aí na imagem ao lado, do tratamento. A galera da firma no máximo ia zoar ele um pouco e a vida ia seguir. Nada de desemprego para este rapaz.

Mães conversam desesperadas comigo sobre o desenvolvimento socio-comportamental de seus filhos e eu passo o que funcionou pra mim sem qualquer adaptação de contexto. Quem é pobre, como lida com isso? Porque se 20 anos atrás o tratamento era dois mil reais por mês (graças à anestesia geral), imagina hoje? E não só isso. Se eu fizesse o tratamento de novo, tenho certeza que seria tratada bem diferente dos meus colegas homens. E olha que passei os últimos dez anos tentando ser como um.

Enfim, só para refletir que a forma como a gente lida com as nossas coisas (ou não) é tão diferente das outras pessoas. E que a cobrança estética da mulher é tão, tão maior que a do homem. Não estou dizendo que os meninos não sofram nada. Mas eu conheci um rapaz que era desses guias de museu com uma mancha no rosto uma vez. Acho que ninguém ameaçou o emprego dele.

Se eu fosse um menino… eu teria me “apaixonado” aos dez anos, como aconteceu, ou só aos 14, quando realmente gostei de alguém? Eu teria chorado tardes e tardes porque uma médica me disse “já que o problema é estético, não mexe”, mesmo que hoje eu concorde com ela? E o tanto que eu chorei quando disseram que a Síndrome de Kipple Trenaunay poderia me dar trombose ao engravidar, e que se eu quisesse ter filhos eu teria de adotar? Quantos homens gastariam lágrimas por não poder ter um filho biológicos, versus quantas gurias?

No fim, até meu rosto é uma expressão de luta pelo direito à dignidade, à igualdade. Mesmo sendo a coisa mais comum do mundo pra mim, para muita gente não é. E a forma que “a sociedade” lida com isso diz muito sobre quem ela é. Ela é machista. O que podemos fazer para que ela vá sendo menos e menos machista, até deixar de ser?

Ebook gratuito: ficção científica feminista

Eu preciso escrever esse texto mas estou CORRENDO E GRITANDO PELA SALA pois: muito empolgada.

Quando eu vi o primeiro Universo Desconstruído, pirei. Junta duas coisas que amo com todo coração: ficção científica e feminismo. Devorei o livro e viajei nas histórias. É uma coletânea especial, nascida do incômodo de Aline Valek e Lady Sybylla: a falta de representatividade feminina no universo sci-fi.

Depois que conheci o Teste de Bechdel fiquei mais atenta a isso. A peça passa no teste se tiver duas mulheres conversando entre si sem ser sobre um homem. É impressionante que um teste tão simples ainda tenha tantas reprovações. Em 2015, mais de um terço dos filmes lançados não passaram no teste. Isso é assustador. Representatividade é importante: é onde a sociedade se espelha para ser e respeitar. Nesse sentido, o Universo Desconstruído é de vital importância na literatura sci-fi nacional.

Agora você IMAGINA quando eu, fãzona, toda babona desse jeito, mandei um conto pra Sybylla e ela pediu para ser incluso no livro? EU TO SURTANDO! E esse time?! E A HONRA DE ESTAR NESSE TIME??? Eu tô tão absurdada que vou copiar o que a Sybylla escreveu:

A coletânea contém um belo prefácio escrito pela Jules de Faria, do Think Olga. Um cordel lindo da Jarid Arraes, da Revista Fórum. O afrofuturismo marca presença no conto de Fábio Kabral. Marta Preuss deixou a Amazon na mão e entrou para o time do UD contando sobre a sina dos Centaurianos. Thiago Leite, da Teia Neuronial, recontou a história de Andrômeda. Meu conto fala de uma nave que depois de cem anos retorna à Terra. O conto do Ben Hazrael, lá do Cabaré das Ideias, fala da busca de Viviana por seu irmão gêmeo. Clara Madrigano nos traz uma angustiante estória sobre Ari, abusada e presa na casa de um sádico. E por fim, M.M. Drack, resgata a mitologia dos Cavaleiros do Zodíaco, onde a a capitã Magellan e a androide Andrômeda terão de encontrar uma nave perdida.

ebook-coverTô EXPLODINDO de orgulho! E a melhor parte: o ebook é gratuito! MDDC BAIXA AGORA!

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Se você não curte ler no computador/celular/e-reader você também pode comprar a versão física de papel DE VERDADE do livro! O custo é só de impressão, a gente participou de coração mesmo.

Depois me conta o que você achou!

Paradoxo Tostines da mulher no espaço de trabalho

Eu sempre acreditei que não gostava de garotas. Por dois simples motivos: 1) eu gostava de meninos e 2) gostar de garotas era, senão errado, ruim. Cresci acreditando nisso ao mesmo tempo que desejava meninas, expulsando o pensamento da minha mente tão logo ele surgia. Depois de muitos anos, uma amiga me disse “Hey, Marta, você é bi, né?”. Nessa idade eu já tinha conseguido desconstruir uma grande gama de preconceitos meus e finalmente entendi: “Num é que eu sou, menina?!”.

Foi assim que me senti lendo Faça Acontecer, da Sheryl Sandberg. A alta executiva do Facebook, ex Google, uma das poucas mulheres em altos cargos do Vale do Silício explica como é ser mãe, ter vida profissional, e porque tão poucas mulheres fazem a mesma escolha. Eu finalmente entendi que não basta ser mulher e ir lá. Isso não acontece assim.

Recebemos instruções a vida toda de como ser mulher, como devemos nos portar e até de quais cores a gente gosta, quais matérias a gente gosta na escola. O caminho do sucesso (e ela usa uma analogia muito legal: não aescada do sucesso, mas o trepa-trepa do sucesso; não é uma linha reta, mas um brinquedo cheio de possibilidades, descidas, andadas) começa a ser escrito quando somos crianças.

É muito fácil julgar uma mulher tanto por ser mãe e continuar no trabalho, quanto por não ser mãe e continuar no trabalho, quanto por ser mãe e sair do trabalho. A única opção viável é ser homem: foi isso que a gente aprendeu. Sheryl conta como ela lida com isso e, em resumo, é: com a ajuda dos homens (chefe e esposo) e sem esperar ser perfeita.

Aliás um bom resumo do livro é essa palestra que ela deu pro TED Woman:

E aí caiu minha ficha em vários pontos do meu comportamento profissional. Por exemplo, eu tenho o costume de pedir desculpas por tudo. Por o que eu chamo de atraso para responder um e-mail: “desculpa a demora”. Mas às vezes meu chefe, o cliente, eles demoram muito mais e não pedem desculpas por nada. Arrisquei e: ninguém se importou de eu ter respondido um e-mail no dia seguinte e não pedir desculpas.

Eu sou bem incisiva. Mas quando meus colegas homens erram, eu tomo o maior cuidado. Sou cheia de dedos, chamo em privado no chat, faço a crítica construtivamente: “olha da próxima vez talvez seria melhor se a gente fizesse desta outra forma” mesmo que por dentro eu esteja “caralho filha da puta, custa fazer o negócio direito, porra?!”. Em contraponto, meus colegas de repente berram PORRA MARTA VOCÊ FEZ UMA BESTEIRINHA INSIGNIFICANTE AQUI HEIN no meio da sala para todo mundo ouvir. Ninguém se importa.

Ou quando meu chefe está concentrado, ele simplesmente corta quem for e segue focado no que ele quer saber – não importa se é uma ideia maravilhosa ou se perdi dias programando algo. Mas quando eu preciso falar não, eu peço para outra pessoa falar por mim (“pergunta pro meu chefe se é ok”) ou fico até mais tarde ouvindo ladainha para não cortar ninguém e parecer grosseira. Porque, como eu sou menina, é esperado que eu seja gentil e fofa; quando eu sou incisiva, as pessoas acham que eu sou grossa.

(as pessoas acham que eu sou grossa o tempo todo e isso me pesa muito mais do que eu admito na vida real. me sinto na obrigação de ser gentil o tempo todo e falho sempre. 98% das vezes que sou grossa, não percebi que fui).

Com esse livro, caí no paradoxo do “é crocante porque é fresquinha ou é fresquinha porque é crocante?” das bolachas Tostines: as mulheres não querem chegar nas áreas de gestão ou as áreas de gestão afastam as mulheres? Porque os dados (e todo o livro da Sheryl é baseado em dados) dizem que mulheres começam equalitariamente no mercado de trabalho, mas quanto maior o cargo, menos mulheres. Elas são menos gananciosas ou elas foram ensinadas a serem assim?

Comecei a reparar quais meus comportamentos não eram necessários para mim como profissional e percebi o quanto floreava e sofria por não atender as expectativas de uma mulher em um cargo maior. Como colega, ninguém se importa; a coisa complica quando sou eu distribuindo demandas e resolvendo problemas.

Claro que isso ainda vai me afetar e não estou dizendo que este caminho é o que toda mulher deve seguir. Afinal, o feminismo prega a liberdade para a mulher fazer sua escolha e não se sentir culpada pela escolha que ela faz. Mas me decidi a arriscar porque quanto mais mulheres (e negros, gays, bissexuais, trans, etc) líderes, menos precisaremos do adjetivo. Seremos todos apenas “líderes” e não “mulheres líderes”.

E tenho menos medo (e até estou pensando!) da possibilidade de ser mãe. Entendi que não preciso escolher entre ter uma carreira e ser mãe, apesar das concessões que vou precisar fazer no dia a dia para equilibrar as coisas. Mas isso todos fazemos, né?

Ironicamente ou não o próximo livro da lista chama “Comunicação Não Violenta” e deve complementar isso tudo. Não quero ser uma escrota; é importante que as pessoas gostem de mim / de trabalhar comigo porque eu dependo delas e quero que elas se sintam confortáveis. Mas também não quero ser uma frouxa. E achar o caminho do meio é meu grande desafio.

O machismo não é do homem. É do sistema.

Essa semana passou esse post na minha timeline do Tumblr. É um quadrinho até que bem antigo, de mulheres ouvindo barbaridades de alguém de fora do quadrinho, sugerindo que quem diz as besteiras pode ser qualquer um. Na provocação do Tumblr, as feministas acham que são homens que falam; mas na verdade, são as mulheres.

Quadrinho original
Quadrinho original

 

Quadrinho editado

Eu comentaria sobre a autoria do quadrinho (Katarzyna Babis, uma menina de 22 anos) e a assinatura da edição (por Ben Garrison), mas um pouco de pesquisa mostrou que Ben de fato é um cartunista – cujo traço é bem diferente do de Babis – e que ele é bem trolado na internet: as pessoas colocam o nome dele em qualquer coisa. Então não sei se foi ele quem editou (mas se foi, bem, temos o quadrinho de uma menina versus a edição de um homem branco de meia idade, né. Só isso já invalida a crítica.).

O fato é que fiquei bem triste com a imagem. Porque ela está correta (e as feministas sabem disso, mo quirido). Claro que homens falam essas coisas sim, mas mulheres também falam, e falam alto. E dói o dobro. É mais fácil se livrar de um idiota desconhecido enchendo seu saco do que quando é sua mãe, irmã ou melhor amiga que fala que a sua roupa é inapropriada, ou que você está gorda, ou que deveria “se cuidar”.

Isso acontece porque o machismo não é a opressão de um homem sobre as mulheres, mas a opressão do Homem sobre a Mulher. Do homem como gênero, não como indivíduo. É um sistema que privilegia um gênero contra outro. Por isso que quando vocês vem com “ai nem todos os homens são assim” a gente revira os olhos. Por isso que tem muita mulher machista. Por isso que todos nós, todos os dias, descobrimos algo que é machista e que a gente não tinha se tocado até então.

O capitalismo em si é um sistema não apenas machista, mas opressor. Para o capitalismo funcionar, um grupo necessariamente é superior e oprime outro. No caso das mulheres, é útil para o capitalismo que a vida em casa seja cuidada por alguém, deixando o empregado descansado e 100% focado no emprego. Para isso acontecer, alguém precisa cuidar das crianças, fazer a comida e passar roupa. Quem trabalha fora e não tem empregada nem mora com os pais sabe o quanto isso pesa.

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Não quero colocar o foco no capitalismo porque, bem, não manjo de política nem economia pra falar. O fato é: as pessoas são machistas porque todo nosso ambiente, nosso meio, o nosso “normal” é ser machista. Ter a parte oprimida oprimindo a si mesma é um ganho enorme deles. E por isso a gente precisa se esforçar tanto para desconstruir.

Outro dia fui almoçar com um amigo e comentei sobre as várias vertentes do feminismo e ele estranhou: se um movimento tem tantos problemas, deve ter algo errado. E tem. Somos ensinadas desde pequenas a reproduzir esses discursos aí em cima. A competir, a julgar, a acreditar que a amiga está sendo falsa ou vai te trair. Até a nossa união precisa ser constantemente trabalhada.

Então, caras, o feminismo não se ilude achando que mulheres não são machistas é que é tudo culpa dozome (mesmo que seja). O fato é que, mesmo quando são as mulheres que são machistas, quem se beneficia desse comportamento são os homens.

Portanto, gatas, vamos por a mão na consciência né. Todo mundo já julgou a amiguinha, acontece. Mas daqui pra frente, vamos pensar melhor: se ela saiu sem depilar a perna, bem, foda-se né? Sem sutiã? Que inveja. É dona de casa? Bom pra ela, quero pegar umas receitas. Quer trabalhar e ter filhos? Manda brasa. Filhos nem pensar? Teje livre.

Quando a gente para de mandar na vida dos outros, tira o peso dos outros da nossa vida também.

É só uma pegadinha

Umas semanas atrás eu briguei na firma, na hora do almoço, porque os meninos foram ver um vídeo que começava mais ou menos assim:

Será que a mulher brasileira é interesseira? Vamos fazer hoje o teste e saber se ela te dá bola se você não tiver um carrão!

E eu fico bem brava com isso de mexer com mulher na rua então fechei a cara e não consegui explicar, na hora, porque isso me deixava tão brava. Então vai ter textão 

Vamos ver o vídeo e achar todos os pontos que discordamos? Vamossss!

“Será que a mulher brasileira dá moral para um cara só por que ele está com um carrão?”

Bom, se fosse só a brasileira a pegadinha não tinha vindo de fora né. Mas machismo não existe só no Brasil, é uma coisa meio que mundial. Então no mundo todo as mulheres são ensinadas a serem bonitas porque aí um cara rico vai te querer e você não precisa fazer nada, só enfeitar o mundo dele.

(se ele te bater, te trair, te largar, bem, a culpa é sua).

A pegadinha

Um idiota parou um carro perto de uma faculdade, onde né, só tem menina jovem, inexperiente, ingênua, ficou encostado em um camaro amarelo (rei do camarote?) e aí ele chamava as meninas e pedia informações e convidava elas para irem com ele.

Problemas:

1) O cara é branco e gatinho

Lógico, o negro é só o apresentador bonachão. Se fosse um negro do lado de um camaro talvez caía polícia em cima pro cara não roubar o carro. Ele é todo galanteador e fala que quer comer muito, numa churrascaria chique, que acabou de chegar de São Paulo. Enfim, sou rico gata, confia em mim.

2) Um homem mexe com meninas na rua para uma pegadinha

Já é babaca mexer com menina na rua. Pra ser engraçado para os outros, então, nossa.

3) Ele obviamente só mexe com meninas mais gatas

Porque ninguém vai dar moral para menina “feia” e se vai aparecer no canal que seja umas mina gostosa pelo menos.

4) Ele pede para ela ir com ela

“Vocês apareceram na hora certa, eu vim de São Paulo e…”, ou seja, tenho dinheiro, vocês são especiais, é o DESTINO. Ele pergunta se ela pode ir junto e quando ela nega, porque ele não é tão rico quanto parece e VAI SABER pra onde esse idiota vai me levar, se ele mentiu sobre o carro vai saber sobre o que mais mentiu e NOSSA, OLHA QUE INTERESSEIRA.

Migo se és tão fodão, tão rico, tão camaro, wow, such car, much money, CADÊ O GPS DO SEU IPHONE?

5) ELE AGARROU A SEGUNDA MENINA

“É o destino wiskas sachê” e pegou pela cintura e beijou a menina e passou a mão na bunda e WAIT WHAT? “Ah Marta ela gostou”, bom, PELO MENOS ELA QUERIA TAMBÉM nossa nem sei como agradecer. “VEM CÁ QUE EU VOU TE CONVENCER” what the actual FUCK?

Bônus: propaganda para pegar mulher

Você não precisa ser rico, você não precisa ter camaro, basta usar o celular.

Com essa desculpa de mandar dicas de sedução o cara VENDE UM SERVIÇO para ensinar homens a pegarem mulheres como se fossem COISAS QUE ELES COLECIONAM.

Imagino o que esse curso diz sobre quando uma mulher diz “não”…

Ai, Marta, mas você vê problema em tudo

Vamos nos fazer uma pergunta: a gente precisa de mais uma coisa trabalhando com esteriótipos, machismo, gente babaca? Não. A gente precisa disso como entretenimento? Não. A gente meio que precisa do oposto no momento: de entretenimento que não degrina ninguém. Nem é tão difícil não ser babaca, vamos tentar com mais afinco. Miga, melhore.

Coisas que me disseram quando reclamei

“Ah você tem de ver o vídeo todo para reclamar”
Ok, pronto, vi e tá reclamado com propriedade. Foi horrível. Quero meus 7min de volta.

“Mas elas são interesseiras, elas queriam sair com eles, elas que se entregaram”
Tem uma coisinha que chama dominação. Você sabia que os divórcios no nordeste aumentaram depois do Bolsa Família? O benefício vai para a mãe das crianças que, conseguindo se sustentar, podiam sair de uma relação abusiva.

A ideia é: ser rico para ter uma menina bonita de enfeite. Gata, o cara tá te usando, sai dessa. Se você quer ganhar dinheiro por ser bonita, vai ser modelo. Relacionamento desses é de mentira.

E não OUSE dizer que sou feminista até a hora da conta chegar porque racho TODAS as minhas contas de restaurante e já paguei muito motel nessa vida, principalmente porque o cara se sentia humilhado por ter uma mulher que trabalha pagando sua parte.

“É só uma pegadinha”
É um reflexo do que já acontece hoje, é a gente endossando que mexer com mulher na rua é normal e engraçado e que mulher tem mais é que ser bonita e acompanhar o cara rico e ISSO TUDO TÁ MUITO ERRADO.

Se eu reclamo de falta de representatividade em novela e capa de revista cê acha que vou deixar um negócio desses passar?

“Ouve por um ouvido e sai pelo outro”
Tem duas turmas nesse vídeo: os que fazem a pegadinha e as vítimas da pegadinha. E eu tô no grupo das vítimas. TODOS OS DIAS.

Quando você vê esse vídeo, por algum motivo escroto você ri, fecha e segue sua vida.

Quando eu vejo esse vídeo lembro todas as vezes que mexeram comigo, minha irmã, amigas ou quaisquer outras mulheres na rua. E sei que isso vai acontecer amanhã. E um monte de caras, que viram isso, aprenderam que isso é normal e engraçado.

Não dá para não reclamar, lamento.

“Você precisa explicar pra eles o que é errado”
Uma coisa que aprendi é que só vale a pena explicar o feminismo de verdade para quem é vítima, não para quem é opressor. Para o opressor não interessa mudar. Já é tudo ótimo do jeito que é, eles são beneficiados por isso. O esforço para fazê-los entender é enorme e, muitas vezes, infrutífero.

Mas quando você explica isso para uma mulher, quando acontecer com ela, ela vai lembrar e entender. Ela vai parar de julgar as outras mulheres como interesseiras e saber que ela poderia estar naquela posição, sendo enganada. E se ela for enganada, ela vai estar empoderada para não permitir que isso continue.

Por isso tenho muito mais paciência quando é uma mulher que fala besteira sobre feminismo do que com homem. Porque homem, na moral, que se foda.

Lingerie Day é do bem ou do mal?

Pra quem viveu em uma caverna nos últimos anos, Lingerie Day é um dia onde meninas são incentivadas a trocar o avatar do Twitter ou mandar fotos de lingerie abertamente. Geralmente é na última semana de julho.

Tava vendo meu Timehop (é a primeira coisa que vejo quando abro os olhos porque preciso de alguma luz na minha cara para acordar) e tinha esses posts chamando quem participa do Lingerie Day de vadia:

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Antes eu achava que se expor desse jeito era falta de respeito e era para chamar atenção de homem. Eu tinha raiva de pessoas que não tinham vergonha do próprio corpo como eu tinha. E essas feministas chatas, que pregam liberdade sexual, ficam reclamando que as meninas gatas estão se exibindo para homens.

Poucos dias antes desses tweets eu postei uma foto de shorts e reclamei que não conseguia sair de casa daquele jeito.  A foto não tinha nada demais. Eu era até bem mais magra que sou hoje. E não conseguia sair de casa com um shorts branco curto por vergonha, por medo, por me sentir feia e insegura. E julgava as meninas que queriam participar do Lingerie Day porque elas não tinham esse medo. Eu sabia que se eu reclamasse iam me acusar de ser invejosa porque elas são bonitas e eu não, então dizia que era só vulgar e que elas não se davam ao respeito.

Naquela época eu não percebia que o machismo me afetava dessa forma e foram as tais feministas chatas que me mostraram isso. O machismo gritava na minha cara: “Você não é bonita o suficiente para existir, portanto não apareça. Fique na sua. Suma. Essas são as meninas bonitas. Olha como você não parece nada com elas. Elas merecem tratamento especial porque são bonitas e se você reclamar, está com inveja.”

Com o passar do tempo minha auto-estima melhorou. Eu participei de alguns Lingerie Days, outros mandei foto por DM. Eu notei que era legal quando a gente se sente bonita de mostrar isso para as outras pessoas. É um empoderamento: apesar de não estar no padrão eu sou linda, me orgulho de quem eu sou e não tenho vergonha de mim. Isso me fez me sentir muito bem e hoje amo meu corpo. E o Lingerie Day me ajudou, sim. Me mostrou que a culpa não era das meninas. Que não existe “vadia”, o que existe é mulher que tem a vida que ela quiser (que nem todos os homens). Que se é a mulher que quer se mostrar, ela pode, ela deve.

Finalmente, hoje alguns tweets me fizeram refletir novamente sobre o Lingerie Day. E o que me incomodou foi que o Lingerie Day não foi inventado para empoderar mulheres, mas para exibir meninas no padrão em roupas íntimas. Prova disso:

  1. Os blogueiros que inventaram são homens e seus blogs são machistas
  2. Eles só publicam em seus blogs meninas que entram no padrão
  3. Graças à publicidade, eles ganham dinheiro com fotos enviadas voluntariamente.

Na verdade não sei como me sentir com isso direito. Digo, eu detestava o Lingerie Day, daí curtia, mas agora acho que tem uma parte meio escrota nele.

Então gosto de brincar de Lingerie Day de modo meio privado. Não mando fotos para esses caras (nem adianta me perguntar quais são e não vou linkar essas pessoas aqui porque tô de boas de haters), mesmo porque sei que vai rolar body shame se não diretamente, entre eles. Não preciso disso.

Por outro lado, tenho amigos e amigas que certamente me admiram e sabem que não tem nada de errado com meu corpo, e que sou linda, e sei que quando mando nudes para eles eles ficam felizes porque confiei isso para eles e realmente me admiram. Pelo menos, é assim que me sinto quando recebo nudes de pessoas queridas.

Em resumo: não faça nada para agradar ninguém. Mas se você se sentir com vontade de postar uma foto de calcinha e sutiã porque você é linda, manda bala 🙂 Não acho legal mandar para esses caras, quem vai ganhar dinheiro com a sua intimidade; mas aí a escolha é sua também. Só não vale julgar a amiguinha nem de feia, nem de vadia, nem de careta. Seu corpo, suas regras. Corpo dela, regras dela.

Star Trek: Voyager

Se você não sabe, Eduardo e eu gostamos muito de Star Trek. Mas um problema pra quem gosta muito de Star Trek é que não basta ver uma série ou um filme. São doze filmes, o décimo terceiro a caminho. São várias séries: TOS, TNG, DS9, VOY e ENT. Já vimos as três primeiras e terminamos a Voyager esses dias.

O que dizer dessa série que mal acabei de ver e já considero pacas?

Em Star Trek: Voyager a nave erm… Voyager… é jogada em um quadrante longe pra caralho e vai levar uns 70 anos pra voltar para o nosso quadrante. Capitã Janeway precisa trazer todo mundo de volta para casa – e não vai ser fácil, nem rápido. No caminho encontram diversas raças, muitas hostis. Mas em nenhum momento perdem a esperança de ver novamente o quadrante Alpha e nunca se esquecendo dos princípios da Federação.

Eu nem sei por onde começar a rasgar seda pra essa série.

• A capitã é uma mulher

• Ela não precisa de homem nenhum, tanto que acaba solteira e bem-resolvida

• Aliás, todas as personagens mulheres são fortes e profundas

• Volta com a ideia de exploração do espaço e é uma série muito, MUITO, M U I T O mais dinâmica que Deep Space Nine

• Os conflitos éticos são geniais

• O médico é um holograma. Hologramas são pessoas? Paradigma do Data all over again, mas ainda assim, bem interessante. Sempre cutucando a escravidão. Never forget.

• Tem o Q, várias vezes

• Tem um programa de holodeck brincando com seriados antigos de ficção cientIFICAAAAA

• Tem um volcano  

• Ou a obsessão da Janeway com café

Se você não aguentou ver DS9, não tem problema. Veja. Voyager.

AH! A Sybylla e eu escrevemos um post falando sobre as mulheres de Star Trek e tem uma parte sobre as mulheres de Voyager. Vê lá!

 

O machismo interior

Dia 8 de março, dia da mulher, e como é de nossa tradição é hora de falar mais sobre isso aqui no blog. Esse ano eu estou com outro foco na cabeça. Já faz um tempo que venho pensando em escrever sobre isso, e hoje é o dia ideal.

Nunca fui a mais feminina das mulheres. Nunca gostei muito de boneca (Susi >>> Barbie), mas já ganhei patins, skate e bola de capotão de presente porque pedi. Usava roupa larga, falo mais palavrão que muito homem e sempre fui meio nerd. Desde pequena, não de mais velha. Na minha “cidade imaginária” eu chamava os Borgs de “bruxas” e, se eles me tocassem, eu viraria toda de metal.

Isso porque eu nunca fiz parte do padrão que se espera de uma mulher. Diferente da minha irmã, toda delicada, eu sempre fui mais gordinha e, claro, toda manchada né. A gente fez um teste para TV uma vez e eu sempre quis ser atriz. Mas só a Laís participou. O teste era caro e ela era a bonita. (não foi uma escolha da minha mãe, mas da entrevistadora). A Laís na verdade odeia público e é extremamente tímida como toda menina deve ser (e ao contrário de mim), então não deu certo.

Foi fácil começar a trabalhar com tecnologia. Eu tinha um computador em casa e um pai analista de sistemas, mais um monte de apostilas, muito tempo livre e uma paixão esquisita por blogs, já que sempre gostei de escrever. Tinha uma template shop aos 14 anos. Fiz dois anos de curso e queria ser designer, porque naquela época não existia front-end, mas no desenrolar da minha carreira descobri que gostava mesmo era do meio termo.

Logo nos primeiros anos eu trabalhei em agência. Numa pequena, do ABC, meu chefe me apresentou dizendo “Esta é a Marta, ela vai cuidar do seu projeto” e o cliente disse “Ela?!”. Essa época eu era faz-tudo, de atendimento a gerente de projetos, e ensinava HTML e PHP para um colega de faculdade que trabalhava comigo. A essa altura eu já sabia mais de PHP que meu chefe.

Depois, numa agência grande, é que as coisas realmente ficaram complicadas. O machismo no ambiente de trabalho é meio velado. Atendimento gata é burra. Então se eu fosse uma programadora meio feiosa, acho que tudo bem, né? Eu era mano. Aquela menina com zero sex appeal, que fala palavrão, é meio nerd e obviamente… machista.

Eu não sabia que era machista. Mas me sentia, de certa forma, superior a todas aquelas “meninas fúteis” que só falavam de cabelo, maquiagem, roupa e dietas. Na verdade me sentia péssima por não servir em nada disso; e mesmo que me esforçasse, nunca chegaria lá. Meus colegas namoravam meninas assim, e eu era sempre a solteira. Eu não entendia: como uma menina tão legal, tão inteligente quanto eu poderia continuar solteira, enquanto meus colegas namoravam as gatas-sem-conteúdo?

Cheguei à conclusão, nessa época, que tudo se resumia a: sexo. Conseguir alguém para transar era realmente importante para aquelas pessoas adultas (eu ainda não estava pronta para aquilo, mas um dia seria madura assim). As mulheres se arrumavam para sexo, e os homens corriam atrás delas por sexo, e se tudo se resumia a isso, então claro que as gatas precisam ser gatas, magras, bonitas, e também era claro que eu ia continuar solteira, apenas por escolher não ser assim.

O que me fez ainda mais machista. Para mim, quando a Geisy Arruda andou com aquele vestido, não foi porque ela quis, mas porque ela queria chamar atenção de homem. Quando minha colega de trabalho gata mostrou as amigas dela como um catálogo no Orkut (na época), era porque homens queriam comer mulheres. E assim que a banda tocava: mulher serve para dar. Homem serve para comer. Mulher quer chamar atenção de homem. E eu era superior a isso tudo, porque só queria viver minha vida em paz e julgar as outras.

Acontece que eu cresci e essa hora de sexo virar beijo na boca nunca chegou pra mim. Sempre fui meio caretona, acabava tendo amor-de-pica e nossa, Deus sabe o quanto já chorei por ter me apaixonado por babaca que me comeu. Outras coisas aconteceram, como sair do armário (pra mim mesma. Quando notei que era bi, aos 16 anos, me reprimi porque estava cercada de religião por todos os lados e “a sociedade acha isso muito feio, Marta. Você vai sofrer muito se for lésbica”) e a vivência na internet, quando fui tão bombardeada que acabei indo amolecendo aos poucos.

Pertencer a uma cultura machista é viver uma auto-desconstrução diária. Lembro quando eu tuitei “Ai você quer ser feminista tudo bem, mas raspa as pernas pelo menos” e a Fabiane Lima respondeu “Pra ficar toda me coçando depois? Eu não!” e eu pensei “porra, é mesmo né? Isso não faz o menor sentido”. Homem ser peludo não é nojento. Por que deixamos uma marca (a Gilette no caso) nos influenciar tanto?

Finalmente percebi que não é tudo sobre sexo. Que mulheres não existem apenas para serem comidas, mas existem como pessoas que têm outros desejos e aspirações além de ter um homem. Que ninguém precisa ter um homem. Então, quando deixei de ser machista, comecei a ser mais vaidosa. Não havia mais perigo: eu estava fazendo por mim, de verdade. Pintar as unhas é divertido, quando tenho vontade. Maquiagem também. Mas não preciso fazer todo dia. Só quando eu quero.

Comecei a defender minhas colegas. Comecei a questionar o machismo dos caras. A brigar com eles quando eles estavam sendo babacas. A mostrar que não, mulher não tem de só ficar na cozinha não, que ela tem mais o que fazer que cuidar do cafezinho do amado. Finalmente virei “Marta, a feminista chata”. Porque me recusei a ficar calada. Porque cansei de ouvir e rir de piada machista. Porque aqui não vai desmerecer mulher nenhuma, não.

Os rapazes deixaram de me achar engraçadinha e começaram a reparar se eu estava por perto antes de falar alguma besteira. Episódios que antes eu achava naturais ou corriqueiros começaram a ter um peso imenso para mim, como assumirem que eu não programo hoje porque é “muito complicado” pra eu fazer ou me pedir para trazer o café ou esperar que eu lave a louça. “Mas você é a mulher da equipe, Marta” “E você me contratou para ser front-ender e não sua empregada”.

Hoje brigo, brigo muito. “Não pode, Marta, é feio”. Que pena. Feia, sempre fui.

Note: não estou culpando as mulheres que se comportam assim, mesmo porque fui uma delas. Só quero trazer a (auto) reflexão. Será que fazer parte do clube do bolinha a) é uma coisa real e b) é sequer uma coisa boa? Será que não estamos nos enganando para conseguir sobreviver em um ambiente hostil? E principalmente: será que devemos continuar aceitando isso?

Acho que não. É uma longa desconstrução. Nunca culpe uma mulher pelo machismo dela: ela está cercada disso por todos os lados, cresceu ouvindo as mesmas coisas, e demora para desconstruir. É um trabalho de formiguinha. Um dia a gente chega lá.

O que o feminismo fez por mim

A grande responsável pela minha educação foi minha mãe. Ela parou de trabalhar para cuidar das filhas, minha irmã mais nova e eu, principalmente porque eu era muito doente. Infelizmente a família da minha mãe não era tão instruída quanto eu tive a sorte de ser, e a cultura da família no geral é bem machista. Até hoje minha mãe, que voltou a trabalhar, se aposentou de vez com a desculpa “Olha só. Seu pai fica muito mais feliz quando estou em casa!”. Minha mãe ficou muito chateada quando saí de casa há dois anos, para ir morar com uma amiga – e eu sempre almejei minha independência. Agora, quando vou casar (com um homem), ela está super orgulhosa: finalmente saí da barra da saia dela, vou ser independente e cuidar de mim (?).

Não culpo minha mãe por nada disso, claro. É reflexo de toda uma vida ouvindo o mesmo discurso. Eu só tive a sorte de quebrar o ciclo e entrar em um contexto que me ensinasse a pensar diferente. De qualquer maneira, minha mãe foi a porta de entrada para tudo que me formou, inclusive o machismo.

Teve uma vez que minha irmã achou que estivesse grávida, aos 17. Foi um pandemônio em casa. “Por que não usou camisinha?” “Seu pai vai te matar!” “E agora? Sua vida acabou!”. Desesperada, minha irmãzinha veio me pedir conselho e chá de canela (dizem que é abortivo). O que eu fiz? Rechacei a menina. “Você fez, agora você cuide. Eu não vou incentivar você a fazer um aborto”.

Lembrei dessa conversa esses tempos, que minha irmã passou uma semana em casa, e disse que se fosse hoje respeitaria totalmente a opção dela: se ela quisesse ter o bebê, ia comprar de tudo para meu/a sobrinho/a. Se ela quisesse abortar, mas eu ia até o inferno achar uma clínica confiável e me endividava até a alma para pagar o procedimento. Note que, pessoalmente, eu jamais abortaria. Mas com o feminismo aprendi que escolha é dela. E ela precisa ser respeitada e apoiada seja qual for sua decisão.

É importante lembrar que eu não era como as outras crianças. Eu era doente, tinha uma perna maior que a outra e o rosto todo manchado, mas principalmente: eu gostava de atenção como toda criança, era ativa, participativa, inteligente. Mas não podia. “Você precisa ser humilde, Marta”.

Sempre fui mais gorda que a minha irmã. Sempre vi minha mãe preocupada com o peso, mesmo que ela nunca saísse dos 54kg. Sempre fui a gorda. A barriguda. A “veste uma manga Marta, que feios esses braços de fora, seus braços são manchados e gordos”. Sempre fui moleca, e ouvia muito “Não pode, Marta. Tem de se cuidar.”.

Minha auto-estima, é claro, foi massacrada antes mesmo de eu reconhecer meu “auto”. Eu tinha 13 anos. Estava deitada no chão do quintal de casa, pensando: “Pensando bem, é óbvio que o menino bonito da sala vai gostar da menina bonita da sala. E é óbvio que ele nunca vai gostar de mim. Olha só pra mim. Não sou nada parecida com ela.” Muitas vezes pensei que esse foi o começo da minha depressão, mas depois vi que isso é normal para a maioria das mulheres. A maioria lembra de quando deixou de se achar bonita.

Eu era bem machista, nem sabia o quanto. Engraçado, porque tive de lutar muito pelo meu espaço de programadora nas agências de publicidade; e mesmo assim xinguei a Geisi Arruda e mandei ela “se dar ao respeito”. E comparei gordas e magras, dizendo que era óbvio que qualquer um escolheria a magra. Xinguei tantas saias no umbigo. Me irritava mulheres femininas e gays afeminados, porque davam pinta, porque eram moles e fúteis. Eu achava que tudo acabava em sexo, e homem só ia querer um tipo de mulher.

Mesmo assim era estranho porque eu era a-mina-legal, a-brother, a-macho e mesmo assim continuava solteira. Eu aguentei tanta coisa, tanta piada, tanta nojeira, tanta coisa que eu não gostava (seriados de terror, filmes de bang-bang, esse tipo de coisa detestável) só para me encaixar.

Acredito que o feminismo vai ganhando espaço aos poucos, como peças de quebra-cabeça montadas por histórias, casos e depoimentos; no meu caso, acredito que a primeira grande mudança foi descobrir que eu era bissexual.

Foi quando eu parei de odiar mulher. Quando notei que na verdade, eu achava que elas eram atraentes e bonitas, e eu reprimia meu desejo em forma de raiva. Quando parei de odiar mulher, todas elas viraram minhas irmãs.

Aos poucos, minhas opiniões foram mudando e amadurecendo. Hoje acredito que mulher tem mais é que usar a roupa que quiser. Hoje abomino gordofobia. Hoje não julgo as escolhas da mulher, seja sobre aborto, sobre roupa, sobre peso, sobre filhos ou qualquer coisa. Hoje não odeio minhas irmãs nem sou mais homofóbica. Luto para que todas tenham oportunidades melhores e igualitárias. Hoje não olho estranho para as irmãs trans* e nem se quer tento mais adivinhar se uma pessoa é homem, mulher, cis ou trans*, simplesmente porque isso não é da minha conta e não diz nada sobre o caráter da pessoa.

Graças ao feminismo, hoje sou livre e bonita do jeitinho que eu sou.

Essa é a versão completa de um post coletivo proposto pelo Think Olga: Como o Feminismo Mudou sua Vida. Escrevi este calhamaço mas só podia enviar 750 caracteres (por isso tem uns pedacinhos iguais) mas achei importante publicar a versão inteira também.

"Feminista não gosta de elogio"

Algumas vezes reclamei de elogio e de ser bem tratada apenas por SER mulher. Assim como mulher pagar menos na balada, alguns elogios têm o duplo sentido de agradar a mulher para satisfazer o homem. Isso me irrita, porque se a mulher for fora do padrão, ela não vai receber o mesmo tratamento; pode inclusive receber tratamento inferior.

Esse não é, entretanto, o pior problema. O problema é que você nunca sabe quando é só um elogio ou quando a pessoa quer te estuprar. Porque homens não têm medo de andar no escuro e ser estuprado. Roubado, sim. Apanhar, talvez. Mas eu duvido que só um homem que esteja lendo isso já pensou duas vezes antes de fazer alguma coisa com medo de ser estuprado. Então falar “ai credo que exagero qualquer coisinha você já acha que vai ser estuprada” se você for homem e nunca sentiu esse medo, muito menos sentiu esse medo todos os dias da sua vida desde a adolescência, você não sabe do que está falando.

(e isso não é “se achar”, PELO AMOR DE DEUS. Estupro não está relacionado com roupa, idade ou “beleza” da vítima)

Semana passada fiz compra do mês e peguei um taxi no Carrefour do Limão. O taxista (falou que) chamava Lázaro. Ele tem entre 50 e 60 anos. Estava com os olhos meio vermelhos e brincou com minha caixinha de Skol, mas não senti bafo de álcool, então achei que ele poderia me levar até em casa.

Importante: eu não sei dirigir. Eu não consigo correr. Eu tinha R$450 de compras no porta-malas do carro. Estava chovendo.

Comecei brincando como sempre “O sr pode me levar para Santana?” e ele já respondeu “Posso te levar para onde você quiser” e eu insisti brincando “heheheh pagando né?”. Sentei na frente e rolou aquela sessão perguntas de praxe e tal que a gente tem com taxista, tipo nome, idade, onde trabalha. Eu sempre achei normal esse tipo de conversa.

Daí a coisa começou a ficar meio esquisita. Ele começou a falar como era namoradeiro. E que eu tinha cara de menina carinhosa, que fica muito tempo com alguém. Perguntou se o Eduardo era meu namorado de mais tempo e eu disse que sim, que teve uns de meses e até uns de minutos. Ele disse “Ah! Você não é de minutos. Você é de horas e horas. Coitado do Eduardo”.

Sorri amarelo. Ele tava dirigindo. Pensei “se esse porra me levar prum motel já era” e “se eu irritar ele, e ele resolver me bater e me jogar pro banco de trás?”. Muitos homens pensariam nos R$450 em compras, na chuva e no fato que não consigo correr. Fiz de conta que não tinha ouvido nada, mas o assédio continuou.

“Você é muito linda, você é maravilhosa.”, “Que sorriso fantástico!”, “Você é diferente das outras, você é especial”, “Que gaúcha arretada!”.

“Você gosta de balada?”
Falei “não, passei da idade”.
Ele tocou meu rosto e disse “Hahaha até parece”.

Falei sobre o Eduardo e ele disse “ah ele mora longe, ele tem que comparecer senão você acha um substituto, porque você não é das que fica sem.”

Ele tocou meu cabelo: “Olha como você é loirinha, gaúcha”. Ele disse “Você está com sono? Dorme. O GPS tem seu endereço. Eu te levo para a sua cama nos meus braços.”

Comentei isso no Secret, um app novo, e responderam “Ele não era bonito o suficiente, né, querida? Mais sorte da próxima vez”. Mas gente eu tenho namorado? Podia ser um deus grego, falando essas coisas comigo dentro de um carro eu não ia sentir menos medo de ser estuprada.

Vocês podem falar que feminismo é exagero, mas nunca vi um homem com medo de pegar taxi na vida. Ou ficar dias sem ir no mercado e sem ir almoçar sozinha com medo de ser abordada por esse cara na rua. Ele sabe onde eu moro, onde eu trabalho, onde eu almoço. O Eduardo até veio me buscar sábado. Eu saio todo dia entre 20h e 21h30 do trabalho.

Isso aconteceu semana passada e fiquei uns dias em choque, de quase não conseguir manter minha vida sexual. Chorei pra caralho. O cara não me tocou, mas por dias eu fechava os olhos e vinha na minha cabeça o que ele é capaz de fazer. Entre ontem e hoje, deu coragem de postar no blog, porque até então eu tinha vontade de chorar só de lembrar.

Eduardo falou para eu denunciar o cara, mas vão rir de mim, afinal “ele não fez nada”, “você que está exagerando”, “isso não é nada demais”. Me disseram que as feministas querem mais direitos que os homens e reafirmo: queremos os mesmos direitos. Talvez podemos começar com o direito de ir e vir sem sentir medo de ter uma relação sexual sem nossa vontade.

Precisamos TANTO de feminismo que tem gente que acha que isso não é nada demais.

É demais.