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Ebook gratuito: ficção científica feminista

Eu preciso escrever esse texto mas estou CORRENDO E GRITANDO PELA SALA pois: muito empolgada.

Quando eu vi o primeiro Universo Desconstruído, pirei. Junta duas coisas que amo com todo coração: ficção científica e feminismo. Devorei o livro e viajei nas histórias. É uma coletânea especial, nascida do incômodo de Aline Valek e Lady Sybylla: a falta de representatividade feminina no universo sci-fi.

Depois que conheci o Teste de Bechdel fiquei mais atenta a isso. A peça passa no teste se tiver duas mulheres conversando entre si sem ser sobre um homem. É impressionante que um teste tão simples ainda tenha tantas reprovações. Em 2015, mais de um terço dos filmes lançados não passaram no teste. Isso é assustador. Representatividade é importante: é onde a sociedade se espelha para ser e respeitar. Nesse sentido, o Universo Desconstruído é de vital importância na literatura sci-fi nacional.

Agora você IMAGINA quando eu, fãzona, toda babona desse jeito, mandei um conto pra Sybylla e ela pediu para ser incluso no livro? EU TO SURTANDO! E esse time?! E A HONRA DE ESTAR NESSE TIME??? Eu tô tão absurdada que vou copiar o que a Sybylla escreveu:

A coletânea contém um belo prefácio escrito pela Jules de Faria, do Think Olga. Um cordel lindo da Jarid Arraes, da Revista Fórum. O afrofuturismo marca presença no conto de Fábio Kabral. Marta Preuss deixou a Amazon na mão e entrou para o time do UD contando sobre a sina dos Centaurianos. Thiago Leite, da Teia Neuronial, recontou a história de Andrômeda. Meu conto fala de uma nave que depois de cem anos retorna à Terra. O conto do Ben Hazrael, lá do Cabaré das Ideias, fala da busca de Viviana por seu irmão gêmeo. Clara Madrigano nos traz uma angustiante estória sobre Ari, abusada e presa na casa de um sádico. E por fim, M.M. Drack, resgata a mitologia dos Cavaleiros do Zodíaco, onde a a capitã Magellan e a androide Andrômeda terão de encontrar uma nave perdida.

ebook-coverTô EXPLODINDO de orgulho! E a melhor parte: o ebook é gratuito! MDDC BAIXA AGORA!

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Se você não curte ler no computador/celular/e-reader você também pode comprar a versão física de papel DE VERDADE do livro! O custo é só de impressão, a gente participou de coração mesmo.

Depois me conta o que você achou!

Conto – Vacina

Acordei em uma enfermaria. Éramos oito, dez pacientes. Demorei para me recordar… Ah, sim, houve um acidente. Parece que caí na calçada, só algumas escoriações, e ninguém avisou que eu tenho convênio e que tenho direito a um quarto particular. Mas não tem problema; me sinto bem e os companheiros de quarto são gentis. Estamos todos quase recuperados, quase bem.

– Lucas! Sua vez.

Resignado, Lucas levanta da maca e caminha devagar em direção ao seu medicamento. Nós, que sobramos, continuamos conversando baixo.

– Você percebeu que hoje chamaram todos os negros da sala para tomar essa vacina?

– Bobagem. Coisa da sua cabeça. – respondi. Mas ao avaliar a sala, percebi que era verdade.

No dia seguinte, uma nova rodada de vacinas. Ninguém sabia para quê elas serviam. Eram doloridas, inflamavam. Algumas pessoas tinham a saúde ainda pior depois de tomar; outras não voltavam para o quarto.

– Marta.

Era meu nome. Minha vez. Levantei para aceitar minha medicação, mas um colega me segurou.

– Não vai. Estão matando a gente.

– Eu preciso saber o que está acontecendo.

Acompanhei a enfermeira até a sala de aplicações.

A sala de aplicações tinha três pessoas, duas macas e uma enfermeira manipulando a solução, mas tudo que consegui ver foi o aplicador da vacina: uma pequena pistola de pressão que me deu arrepios.

– Onde ela precisa ser injetada?

– No músculo da perna. Na sua perna que não machucou, porque ela pode causar um… desconforto.

“Desconforto” é a palavra que usam quando a injeção vai doer muito.

– Então… – tentei ganhar tempo, porque estava apavorada – Essa injeção é pro que mesmo?

– Para o fígado – a enfermeira respondeu baixinho, quase com vergonha.

– Fígado? Mas eu não machuquei o fígad–

– Vocês têm tratamento de primeiro mundo aqui no hospital público e acha que a gente consegue esse dinheiro da onde? A gente precisa da ajuda da indústria farmacêutica! É uma troca justa: vocês fazem os testes para receber o melhor tratamento.

Me debati, gritei, mas tinha outras duas pessoas sobre mim.

Acordei chutando o gato.

O voo. O baque.

A Amazon estava com um concurso de contos aberto até o final do mês passado. A regra era: publicar um conto exclusivo para Kindle com até seis mil caracteres. Resolvi que esse era um marco importante para mim e botei na cabeça que ia participar.

Já participei de concursos antes, mas não rolou (hoje vejo claramente que a história que mandei é cheia de falhas). Hoje tenho mais maturidade para lidar com isso: não espero chegar nem nos 20 finalistas, apesar de ter me esforçado para conseguir o melhor lugar possível. O que valia, aqui, era quebrar esse medo da primeira vez e publicar. um. conto. na. amazon.

Sabe quanto dá uns 6000 caracteres contando espaços? Umas três pra quatro folhas de Arial 12. Não dá pra nada. Sofri horrores. Queria mandar um conto.zip, sabe?

51k0r2jEbIL._SL1000_Não pude usar o primeiro conto que escrevi graças a essa limitação de caracteres (não consegui condensar sem perder muita coisa), nem o segundo (era a história de uma pessoa que não tenho autorização para publicar). Mas eu sentia que precisava fazer alguma coisa. Não queria deixar passar.

Então em uma noite me bateu a inspiração. Mais do que isso: a história quase pediu para ser expurgada do meu coração. Peguei o celular, deitei de bruços e digitei ali mesmo, toda torta e dolorida.

Assim nasceu O voo. O baque.

A história é forte: conta o dia de uma tentativa de suicídio. Portanto, se você tiver gatilhos com esse tema, por favor não compre. Não faça mal para si mesmo. Mas achei importante escrever. Às vezes, naquele ponto, uma coisa que pode ajudar é descobrir que alguém entende.

Eu entendo.

Então, se você puder comprar meu conto na Amazon ele custa só R$1,99 mas até domingo está de graça, então me dê essa forcinha se você não tiver esse gatilho com suicídio. Você não precisa ter um kindle para ler: dá pra usar o computador ou o celular. Ele é forte, mas curto. Depois me diz o que você achou!

Celulares e seus mergulhos ao chão

Tem essa teoria do pão cair sempre com a manteiga para baixo, o que faz algum sentido na minha cabeça. O lado da manteiga é mais pesado. Claro que ela vai ser atraída para o chão. A física e biologia dos gatos também sempre cairem em pé é facilmente explicada – pelo menos por alguém qualificado. Precisamos agora de uma ciência que explique por que celulares caem sempre de quina no chão.

Faz um ano e meio que tenho este aparelho e é a segunda vez que a tela se espalha em rachaduras que lembram uma teia de aranha, marca dos desastrados. Da primeira, fui tirar do bolso da calça e ele estava mais leve do que minha super força, fazendo uma parábola no ar. Desesperada para resgatar o aparelho, meu reflexo foi estender o pé, para amenizar a queda. Consegui o exato oposto: o impulso do chute jogou o aparelho ainda mais longe e ele aterrizou com a tela para baixo.

Essa é a hora do celular de Schrodinger. Naquele segundo, onde ele jaz de costas no chão e você observa a capinha pela primeira vez em meses, a tela está inteira e quebrada ao mesmo tempo. É só quando você toma coragem e toma o aparelho nas mãos que a física quântica faz sua mágica e finalmente exibe o vidro trincado.

Seus ombros caem cansados, decepcionados com você mesmo por ser tão descuidado, e seu bolso começa a chorar desde já porque a tela é a parte mais cara do celular. E ele não tinha nem seis meses nessa queda. Um amigo ia para os Estados Unidos e o aparelho foi junto, porque lá tudo é mais barato.

Duas semanas depois ele estava no mesmo bolso de uma lixa de unha e ganhou ranhuras novas. É mais ou menos como quando você limpa a caixa de areia e o gato imediatamente vai fazer suas necessidades de novo: é para marcar território, saber que o celular é mesmo o seu, ter alguma marquinha de descuido.

(Quando fui colocar película, a moça esfregava a tela franzindo a testa e quando eu disse “É, tá meio riscadinho…” ela não se segurou: “Meio? Foi  o quê, chave?”)

Mas arranhadinhos a gente vai levando, né, que dinheiro não dá em árvore, e passa um ano e os planetas se alinham novamente naquela configuração onde seu signo é Mão de Alface (nascidos entre primeiro de janeiro e 31 de dezembro), então depois de derrubar a mantegueira e quebrar um copo, você resolve que é uma boa ideia colocar o celular no bolso furado do casaco.

O celular de Schrodinger ataca novamente, encaixando entre a roda do carro e a guia da calçada. E adivinha só. Tem assistência da Apple aqui em Florianópolis, quem diria.

Conto de uma sobrevivente

— Meu Deus, o que… o que eu tô fazendo?

Era tarde da noite, umas 3 da manhã e Maísa sentia frio, muito frio. Ela tremia a ponto de não conseguir segurar direito o décimo quinto cigarro. Meia garrafa de vodka jazia ao lado do sofá. Papéis espalhados por todos os lados. Copos e cinzeiros se misturavam à bagunça, tentando passar por inocentes e despercebidos, mas se sentindo culpados por tudo.

Maísa tremia. Em sua camisola leve, o frio das janelas abertas fazia seus pêlos se eriçarem e o bico de seus seios doer de tão endurecido. O tremor era incontrolável.

Com medo de si mesma e voltando ao mínimo de consciência, foi até a janela e, ao olhar para baixo e notar os dez andares que a levariam para a morte certa e fim incerto de toda aquela agonia, a fechou.

O vento parou de espalhar os papéis e cinzas.

Ainda estava frio, Maísa ainda tremia mas conseguiu parar de soluçar.

Sem forças, sentou no chão e se apoiou no sofá velho e desconfortável, presente de um desconhecido que comprou sofá melhor e abandonou este na rua.

Naquela época não tinha problema. Naquela época, tudo era calma e luz. Um sofá velho descartado ganhava uma cobertura acolchoada nova e estava pronto para receber os amigos.

E o carinho, como não?

Mas Carlos foi embora. Os amigos foram embora, um por um. Os trabalhos, mudando, todos eles tão iguais. Sem pais para correr ao encontro. Sem irmãos conhecidos. O nada. O ninguém. E aquela tristeza sem fim.

* * *

Barulho.

Mais barulho, “mas que porra é essa? Argh, minha cabeça…”.

— Bom dia, dona Maísa, a senhora tá boa? É que a dona Santina alí do 903 ouviu uns barulho de coisa quebrando e ficou preocupada com a senhora, e aí a senhora não foi trabalhar hoje aí…

Maísa conseguiu sorrir à gentileza.

— Obrigada, Jorge. Diz pra dona Santina que eu derrubei uns pratos e estou meio gripada, mas vou ficar bem.

O porteiro fez um cumprimento com a cabeça e deixou Maísa sozinha mais uma vez.

Ela se virou e tentou ignorar a bagunça. Passou direto por tudo e colocou água no fogo para preparar o elixir do dia seguinte: café quentinho.

A mente ainda não trabalhava bem, mas o extinto de sobrevivência piscava uma luz vermelha com uma sirene alta que só piorava a enxaqueca. “Acho que ontem… eu pensei em… em me matar…”.

Maísa, aos quase 30, não entendia muito bem da vida, mas sabia que querer tirá-la contra a vontade de Deus não era certo. Nem saudável.

Tomou o café, tomou um banho, mais café. Catou algumas coisas aqui e ali. Foi à farmácia e pediu um calmante. Voltou, ligou pro trabalho e avisou da falsa gripe. “Essa é a segunda vez esse mês, Maísa. Você precisa de umas vitaminas C…”.

“Preciso mais dos calmantes”, ela pensou. Tomou dois, arrumou a cama e dormiu.

* * *

Em algum lugar, distante dali, pessoas muito diferentes de Maísa comemoravam sua depressão sem saber seu nome. “As vendas aumentaram esse mês!” e champagne e bônus. A indústria farmaceutica prosperava às custas de Maísa e outros milhares.

Trata-se os sintomas e não as causas. Analgésico para a dor, pomada para alergia, calmante para depressão. Com a causa, o sintoma persiste e as vendas crescem.

* * *

Anos depois, Maísa descobriu mais sobre si. Depois de tanto ocultar sintomas, se deixou descobrir e achou uma artesã. A criatividade não paga contas. A felicidade não é sustentável. A arte só é respeitada se vende. Maísa começou a achar que o errado era o mundo, não ela. “Não posso salvar o mundo”, ela pensava, “mas pelo menos posso ser resistente a ele”.

O tempo passa e cura. Maísa melhorou devagar. Ela se sentia melhor, pelo menos. O que seria bom? Amigos, um companheiro, um trabalho onde lhe pagassem para ser artesã? Nada disso aconteceu. Os empregos continuavam iguais e ela continuava pulando de um para outro, ganhando o mínimo para sua sobrevivência. Mas, em segredo, pelo menos vivia.

Melhor que muita gente por aí.

Expo Daniel Lince

Para quem não conhece, Daniel Lince é um conto escrito e musicado pelo Paulo Gallian, ilustrado pela Kaori Nagata e com o flash produzido pelo Fabio Has.

Eu não consigo explicar o conto sem dar spoilers, porque ele não é cronológico.  Mas segue a sinopse oficial

-Daniel Lince
Um homem cuja vida gira em torno de um laboratório e seus experimentos.

Criado em um complexo especialmente construído para pacientes com doenças raras, Daniel vê sua vida se complicar após uma série de acontecimentos que revelam informações sobre seu passado.

Lutando contra os diversos efeitos colaterais de sua condição médica, Daniel precisa agir rápido e confiar nas pessoas certas, antes que sua vida tome rumos indesejados.

Passado no futuro, o conto ‘Daniel Lince’ é apresentado em narrativa não-linear, em formato multimídia. Além da interface principal, os leitores podem seguir o perfil no twitter e descobrir outras informações sobre a história, paralelamente ao lançamento dos capítulos.

Escrito por Paulo Gallian, que também compõe a música original, o conto ‘Daniel Lince’ é ilustrado por Kaori Nagata e a interface, desenvolvida por Fabio Has.

Ontem a gente foi na Limited Edition (lojas que você precisa ir para descobrir coisas que você precisa ter mas ainda não sabe) e rolou uma exposição e sorteio de camisetas. Foi super legal 😀

Daniel Lince - exhibition at 'Limited Edition'

O QG Net já falou sobre o Daniel Lince, mas não custa reforçar: visite o site. A história está em português ou inglês e é muito envolvente, vale a pena! (além de ser lindo, né?)

ps. Esse é o post número 500 do Compulsive. Weeee /o/

Ah! As coincidências!

Era o quinto dia de fevereiro, uma sexta-feira, e eu me sentia triste e sozinha. Sozinha porque minha companhia adoeceu e triste pela solidão.

Estava em um trabalho novo há poucos dias e fazia experiências de caminhos para casa. Por isso, mesmo sem companhia me dirigi para a Paulista saindo da estação Pinheiros de trem.

Desci na Cidade Universitária e comecei a procurar um caminho para ir para casa. Quando estamos perdidos a solidão aperta, então comecei a imaginar companhia. Minhas companhias imaginárias costumam me interrogar e assim me conheço melhor.

Não achei caminho para casa, então voltei para a Ponte Orca para ir para a Paulista (afinal, lá é minha segunda casa). Na grande fila, com os fones de ouvido, continuei respondendo as perguntas que meu companheiro imaginário me fazia, bem distraída.

Então alguém me perguntou algo.

Tirei o fone, pedi desculpas e o moço repetiu a pergunta, dizendo:

– Essa é a fila da Ponte Orca?
– É sim.
– Puuuuuuuuutz.
– Hahahah, não se preocupe, é rapidinho.

Fitei-o. Tinha a minha altura, era loiro e tinha olhos verdes. Quantos anos, 25, 28, mais de 30? Estava atrasado.

Conversamos, pois éramos duas pessoas muito simpáticas em uma fila enfadonha.  Falamos sobre como portar uma doze pode salvar seu dia, resolver todos os seus problemas. Escolhi achar que ele estava brincando (eu conheço pessoas que acham mesmo isso) e ri e brinquei junto. Conversamos sobre o naturalismo de músicas como “no samba ela me diz que rala/ no samba eu já vi ela quebrar” e pagodes desses. Falamos um pouco dele.

Ele era divertido. Podia até concordar no fundo, mas sempre procurava um contra-ponto: um pequeno troll engraçado e gentil. Ele curte Hermes & Renato e eu agradeci aos vídeos que vi no You Tube. Eu disse que meia vida minha era na internet e ele teve pena.

Não faço idéia se a parte do “uma amiga minha morreu semana passada, minha mina terminou comigo e perdi meu emprego” era brincadeira ou não. A parte do “e ainda falhei no suicídio” ele garantiu que era.

Era sádico. Não ria das próprias piadas e admitia a isso seu sucesso. No fundo eu sei que adoro uma piada sádica e rio de qualquer par de olhos verdes.

Desceu na Consolação. Perguntou se eu acreditava em Deus também (como se fosse Papai Noel) quando falei em casamento. Com um aperto de mão se despediu: “Prazer, Carlos”.

Acho que nunca mais nos veremos de novo.

Só uma coincidência. Uma folha que cai, uma nota de jornal.

Por quê, pra quê e para onde ele foi são perguntas erradas: inúteis e sem resposta. Assim como por que ele existiu, como um relâmpago, pra que ele foi falar comigo, que diferença isso faz/fez são coisas que não cabe a mim saber.

Mas eu não entendo nem desgosto dessas falhas na matrix: como bolinhos de chuva em forma de animais, acho graça e sigo em frente.

Quem pode saber, não é mesmo?

2012

Todos eles passaram pelo Processo de Recapacitação Pessoal depois que os Kraehns chegaram. Era pra tornar a raça humana menos agressiva e sem dúvida menos sentimental. Todos sabem que o que faz a raça humana ganhar sempre de todas as invasões alienígenas era o Amor e a Esperança. Os Kraehns também sabiam, então inventaram que Amor e Esperança eram coisas ruins, fizeram uma novela onde a vilã amava e o bandido era esperançoso, então Amor e Esperança caíram em desuso e, quando sobrava alguém mais atrevido, era mandado para esses centros de Processo de Recapacitação Pessoal.

Todos eles ficaram presos por seis meses, sendo dopados e obrigados a verem cenas horríveis. Os Kraehns não era uma raça lá muito mais evoluida que a humana – talvez, a humana chegasse lá em poucos séculos não fosse a exploração pela qual estava se sujeitando – mas sabiam como alienar e controlar seres. Adestrar. Desde formigas, desde pulgas de circo, até humanos.

Na verdade, foi bem simples. Falando com as pessoas certas, a infiltração foi tranquila e, depois do caos, controlar os sobreviventes os venerando como Deuses (tudo que cai do céu é deus, pra qualquer raça rescem-renascida) foi bem fácil.

Entre eles, havia uma mentirosa. Os Kraehns sabiam detectar mentiras, pois mentiam o tempo todo. É como um bêbado sente o cheiro do outro. Mas julgar – não. Kraehns não sabiam julgar a mentira, então ficaram confusos e pensaram que, se ela fosse largada lá, logo se drogaria até morrer ou morreria de outra forma qualquer.

Ela mentiu depois do dia do tratamento que viu uma foto da sua mãe, editada no computador, ser refletida na sua mente. Ela nunca soube quem foi sua mãe, mas com as técnicas de dominação e hipnose, a imagem foi resgatada da memória mais infantil. Pena, a imagem era embaçada, já que naquela época seus olhos ainda não funcionavam bem. Seria impossível reconhecer aquela mulher. Mas os Kraehns, os filhos da puta, pegaram a imagem e ensanguentaram, e maltrataram, para que não houvesse Amor nem Esperança.

Não deu certo. Ela não sabia o porque, nem os Kraehns, mas eles não sabiam que não tinha dado certo. Ela ficou em silêncio e foi a única que não chorou.E eles sabiam que ela estava mentindo, mas não sabiam sobre o que, e não perguntaram.

Agora, livre, ela tinha algum tempo livre. E ia utilizá-lo para alguma coisa.

/* Eeeee, fazia uma cara que eu não escrevia um pedaço de um conto! Foi só pra tirar o post anterior. Foi como aquelas chuvas de verão: veio e se foi. Mas foi divertido enquanto durou. */