Paradoxo Tostines da mulher no espaço de trabalho

Eu sempre acreditei que não gostava de garotas. Por dois simples motivos: 1) eu gostava de meninos e 2) gostar de garotas era, senão errado, ruim. Cresci acreditando nisso ao mesmo tempo que desejava meninas, expulsando o pensamento da minha mente tão logo ele surgia. Depois de muitos anos, uma amiga me disse “Hey, Marta, você é bi, né?”. Nessa idade eu já tinha conseguido desconstruir uma grande gama de preconceitos meus e finalmente entendi: “Num é que eu sou, menina?!”.

Foi assim que me senti lendo Faça Acontecer, da Sheryl Sandberg. A alta executiva do Facebook, ex Google, uma das poucas mulheres em altos cargos do Vale do Silício explica como é ser mãe, ter vida profissional, e porque tão poucas mulheres fazem a mesma escolha. Eu finalmente entendi que não basta ser mulher e ir lá. Isso não acontece assim.

Recebemos instruções a vida toda de como ser mulher, como devemos nos portar e até de quais cores a gente gosta, quais matérias a gente gosta na escola. O caminho do sucesso (e ela usa uma analogia muito legal: não aescada do sucesso, mas o trepa-trepa do sucesso; não é uma linha reta, mas um brinquedo cheio de possibilidades, descidas, andadas) começa a ser escrito quando somos crianças.

É muito fácil julgar uma mulher tanto por ser mãe e continuar no trabalho, quanto por não ser mãe e continuar no trabalho, quanto por ser mãe e sair do trabalho. A única opção viável é ser homem: foi isso que a gente aprendeu. Sheryl conta como ela lida com isso e, em resumo, é: com a ajuda dos homens (chefe e esposo) e sem esperar ser perfeita.

Aliás um bom resumo do livro é essa palestra que ela deu pro TED Woman:

E aí caiu minha ficha em vários pontos do meu comportamento profissional. Por exemplo, eu tenho o costume de pedir desculpas por tudo. Por o que eu chamo de atraso para responder um e-mail: “desculpa a demora”. Mas às vezes meu chefe, o cliente, eles demoram muito mais e não pedem desculpas por nada. Arrisquei e: ninguém se importou de eu ter respondido um e-mail no dia seguinte e não pedir desculpas.

Eu sou bem incisiva. Mas quando meus colegas homens erram, eu tomo o maior cuidado. Sou cheia de dedos, chamo em privado no chat, faço a crítica construtivamente: “olha da próxima vez talvez seria melhor se a gente fizesse desta outra forma” mesmo que por dentro eu esteja “caralho filha da puta, custa fazer o negócio direito, porra?!”. Em contraponto, meus colegas de repente berram PORRA MARTA VOCÊ FEZ UMA BESTEIRINHA INSIGNIFICANTE AQUI HEIN no meio da sala para todo mundo ouvir. Ninguém se importa.

Ou quando meu chefe está concentrado, ele simplesmente corta quem for e segue focado no que ele quer saber – não importa se é uma ideia maravilhosa ou se perdi dias programando algo. Mas quando eu preciso falar não, eu peço para outra pessoa falar por mim (“pergunta pro meu chefe se é ok”) ou fico até mais tarde ouvindo ladainha para não cortar ninguém e parecer grosseira. Porque, como eu sou menina, é esperado que eu seja gentil e fofa; quando eu sou incisiva, as pessoas acham que eu sou grossa.

(as pessoas acham que eu sou grossa o tempo todo e isso me pesa muito mais do que eu admito na vida real. me sinto na obrigação de ser gentil o tempo todo e falho sempre. 98% das vezes que sou grossa, não percebi que fui).

Com esse livro, caí no paradoxo do “é crocante porque é fresquinha ou é fresquinha porque é crocante?” das bolachas Tostines: as mulheres não querem chegar nas áreas de gestão ou as áreas de gestão afastam as mulheres? Porque os dados (e todo o livro da Sheryl é baseado em dados) dizem que mulheres começam equalitariamente no mercado de trabalho, mas quanto maior o cargo, menos mulheres. Elas são menos gananciosas ou elas foram ensinadas a serem assim?

Comecei a reparar quais meus comportamentos não eram necessários para mim como profissional e percebi o quanto floreava e sofria por não atender as expectativas de uma mulher em um cargo maior. Como colega, ninguém se importa; a coisa complica quando sou eu distribuindo demandas e resolvendo problemas.

Claro que isso ainda vai me afetar e não estou dizendo que este caminho é o que toda mulher deve seguir. Afinal, o feminismo prega a liberdade para a mulher fazer sua escolha e não se sentir culpada pela escolha que ela faz. Mas me decidi a arriscar porque quanto mais mulheres (e negros, gays, bissexuais, trans, etc) líderes, menos precisaremos do adjetivo. Seremos todos apenas “líderes” e não “mulheres líderes”.

E tenho menos medo (e até estou pensando!) da possibilidade de ser mãe. Entendi que não preciso escolher entre ter uma carreira e ser mãe, apesar das concessões que vou precisar fazer no dia a dia para equilibrar as coisas. Mas isso todos fazemos, né?

Ironicamente ou não o próximo livro da lista chama “Comunicação Não Violenta” e deve complementar isso tudo. Não quero ser uma escrota; é importante que as pessoas gostem de mim / de trabalhar comigo porque eu dependo delas e quero que elas se sintam confortáveis. Mas também não quero ser uma frouxa. E achar o caminho do meio é meu grande desafio.

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