O que o feminismo fez por mim

O que o feminismo fez por mim

A grande responsável pela minha educação foi minha mãe. Ela parou de trabalhar para cuidar das filhas, minha irmã mais nova e eu, principalmente porque eu era muito doente. Infelizmente a família da minha mãe não era tão instruída quanto eu tive a sorte de ser, e a cultura da família no geral é bem machista. Até hoje minha mãe, que voltou a trabalhar, se aposentou de vez com a desculpa “Olha só. Seu pai fica muito mais feliz quando estou em casa!”. Minha mãe ficou muito chateada quando saí de casa há dois anos, para ir morar com uma amiga – e eu sempre almejei minha independência. Agora, quando vou casar (com um homem), ela está super orgulhosa: finalmente saí da barra da saia dela, vou ser independente e cuidar de mim (?).

Não culpo minha mãe por nada disso, claro. É reflexo de toda uma vida ouvindo o mesmo discurso. Eu só tive a sorte de quebrar o ciclo e entrar em um contexto que me ensinasse a pensar diferente. De qualquer maneira, minha mãe foi a porta de entrada para tudo que me formou, inclusive o machismo.

Teve uma vez que minha irmã achou que estivesse grávida, aos 17. Foi um pandemônio em casa. “Por que não usou camisinha?” “Seu pai vai te matar!” “E agora? Sua vida acabou!”. Desesperada, minha irmãzinha veio me pedir conselho e chá de canela (dizem que é abortivo). O que eu fiz? Rechacei a menina. “Você fez, agora você cuide. Eu não vou incentivar você a fazer um aborto”.

Lembrei dessa conversa esses tempos, que minha irmã passou uma semana em casa, e disse que se fosse hoje respeitaria totalmente a opção dela: se ela quisesse ter o bebê, ia comprar de tudo para meu/a sobrinho/a. Se ela quisesse abortar, mas eu ia até o inferno achar uma clínica confiável e me endividava até a alma para pagar o procedimento. Note que, pessoalmente, eu jamais abortaria. Mas com o feminismo aprendi que escolha é dela. E ela precisa ser respeitada e apoiada seja qual for sua decisão.

É importante lembrar que eu não era como as outras crianças. Eu era doente, tinha uma perna maior que a outra e o rosto todo manchado, mas principalmente: eu gostava de atenção como toda criança, era ativa, participativa, inteligente. Mas não podia. “Você precisa ser humilde, Marta”.

Sempre fui mais gorda que a minha irmã. Sempre vi minha mãe preocupada com o peso, mesmo que ela nunca saísse dos 54kg. Sempre fui a gorda. A barriguda. A “veste uma manga Marta, que feios esses braços de fora, seus braços são manchados e gordos”. Sempre fui moleca, e ouvia muito “Não pode, Marta. Tem de se cuidar.”.

Minha auto-estima, é claro, foi massacrada antes mesmo de eu reconhecer meu “auto”. Eu tinha 13 anos. Estava deitada no chão do quintal de casa, pensando: “Pensando bem, é óbvio que o menino bonito da sala vai gostar da menina bonita da sala. E é óbvio que ele nunca vai gostar de mim. Olha só pra mim. Não sou nada parecida com ela.” Muitas vezes pensei que esse foi o começo da minha depressão, mas depois vi que isso é normal para a maioria das mulheres. A maioria lembra de quando deixou de se achar bonita.

Eu era bem machista, nem sabia o quanto. Engraçado, porque tive de lutar muito pelo meu espaço de programadora nas agências de publicidade; e mesmo assim xinguei a Geisi Arruda e mandei ela “se dar ao respeito”. E comparei gordas e magras, dizendo que era óbvio que qualquer um escolheria a magra. Xinguei tantas saias no umbigo. Me irritava mulheres femininas e gays afeminados, porque davam pinta, porque eram moles e fúteis. Eu achava que tudo acabava em sexo, e homem só ia querer um tipo de mulher.

Mesmo assim era estranho porque eu era a-mina-legal, a-brother, a-macho e mesmo assim continuava solteira. Eu aguentei tanta coisa, tanta piada, tanta nojeira, tanta coisa que eu não gostava (seriados de terror, filmes de bang-bang, esse tipo de coisa detestável) só para me encaixar.

Acredito que o feminismo vai ganhando espaço aos poucos, como peças de quebra-cabeça montadas por histórias, casos e depoimentos; no meu caso, acredito que a primeira grande mudança foi descobrir que eu era bissexual.

Foi quando eu parei de odiar mulher. Quando notei que na verdade, eu achava que elas eram atraentes e bonitas, e eu reprimia meu desejo em forma de raiva. Quando parei de odiar mulher, todas elas viraram minhas irmãs.

Aos poucos, minhas opiniões foram mudando e amadurecendo. Hoje acredito que mulher tem mais é que usar a roupa que quiser. Hoje abomino gordofobia. Hoje não julgo as escolhas da mulher, seja sobre aborto, sobre roupa, sobre peso, sobre filhos ou qualquer coisa. Hoje não odeio minhas irmãs nem sou mais homofóbica. Luto para que todas tenham oportunidades melhores e igualitárias. Hoje não olho estranho para as irmãs trans* e nem se quer tento mais adivinhar se uma pessoa é homem, mulher, cis ou trans*, simplesmente porque isso não é da minha conta e não diz nada sobre o caráter da pessoa.

Graças ao feminismo, hoje sou livre e bonita do jeitinho que eu sou.

Essa é a versão completa de um post coletivo proposto pelo Think Olga: Como o Feminismo Mudou sua Vida. Escrevi este calhamaço mas só podia enviar 750 caracteres (por isso tem uns pedacinhos iguais) mas achei importante publicar a versão inteira também.

0 comments

  1. Muito bom o texto e a ideia do post coletivo, tô com muita vontade de fazer algo do tipo também. Várias vezes me deparo com memórias de opiniões que eu tinha no passado e acabo pensando “ai cacete, como eu era machista”! Dá uma vergonha gigantesca, mas é muito importante que a gente perceba essa mudança de valores e use como lição e exemplo pro futuro.

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