O machismo interior

O machismo interior

Dia 8 de março, dia da mulher, e como é de nossa tradição é hora de falar mais sobre isso aqui no blog. Esse ano eu estou com outro foco na cabeça. Já faz um tempo que venho pensando em escrever sobre isso, e hoje é o dia ideal.

Nunca fui a mais feminina das mulheres. Nunca gostei muito de boneca (Susi >>> Barbie), mas já ganhei patins, skate e bola de capotão de presente porque pedi. Usava roupa larga, falo mais palavrão que muito homem e sempre fui meio nerd. Desde pequena, não de mais velha. Na minha “cidade imaginária” eu chamava os Borgs de “bruxas” e, se eles me tocassem, eu viraria toda de metal.

Isso porque eu nunca fiz parte do padrão que se espera de uma mulher. Diferente da minha irmã, toda delicada, eu sempre fui mais gordinha e, claro, toda manchada né. A gente fez um teste para TV uma vez e eu sempre quis ser atriz. Mas só a Laís participou. O teste era caro e ela era a bonita. (não foi uma escolha da minha mãe, mas da entrevistadora). A Laís na verdade odeia público e é extremamente tímida como toda menina deve ser (e ao contrário de mim), então não deu certo.

Foi fácil começar a trabalhar com tecnologia. Eu tinha um computador em casa e um pai analista de sistemas, mais um monte de apostilas, muito tempo livre e uma paixão esquisita por blogs, já que sempre gostei de escrever. Tinha uma template shop aos 14 anos. Fiz dois anos de curso e queria ser designer, porque naquela época não existia front-end, mas no desenrolar da minha carreira descobri que gostava mesmo era do meio termo.

Logo nos primeiros anos eu trabalhei em agência. Numa pequena, do ABC, meu chefe me apresentou dizendo “Esta é a Marta, ela vai cuidar do seu projeto” e o cliente disse “Ela?!”. Essa época eu era faz-tudo, de atendimento a gerente de projetos, e ensinava HTML e PHP para um colega de faculdade que trabalhava comigo. A essa altura eu já sabia mais de PHP que meu chefe.

Depois, numa agência grande, é que as coisas realmente ficaram complicadas. O machismo no ambiente de trabalho é meio velado. Atendimento gata é burra. Então se eu fosse uma programadora meio feiosa, acho que tudo bem, né? Eu era mano. Aquela menina com zero sex appeal, que fala palavrão, é meio nerd e obviamente… machista.

Eu não sabia que era machista. Mas me sentia, de certa forma, superior a todas aquelas “meninas fúteis” que só falavam de cabelo, maquiagem, roupa e dietas. Na verdade me sentia péssima por não servir em nada disso; e mesmo que me esforçasse, nunca chegaria lá. Meus colegas namoravam meninas assim, e eu era sempre a solteira. Eu não entendia: como uma menina tão legal, tão inteligente quanto eu poderia continuar solteira, enquanto meus colegas namoravam as gatas-sem-conteúdo?

Cheguei à conclusão, nessa época, que tudo se resumia a: sexo. Conseguir alguém para transar era realmente importante para aquelas pessoas adultas (eu ainda não estava pronta para aquilo, mas um dia seria madura assim). As mulheres se arrumavam para sexo, e os homens corriam atrás delas por sexo, e se tudo se resumia a isso, então claro que as gatas precisam ser gatas, magras, bonitas, e também era claro que eu ia continuar solteira, apenas por escolher não ser assim.

O que me fez ainda mais machista. Para mim, quando a Geisy Arruda andou com aquele vestido, não foi porque ela quis, mas porque ela queria chamar atenção de homem. Quando minha colega de trabalho gata mostrou as amigas dela como um catálogo no Orkut (na época), era porque homens queriam comer mulheres. E assim que a banda tocava: mulher serve para dar. Homem serve para comer. Mulher quer chamar atenção de homem. E eu era superior a isso tudo, porque só queria viver minha vida em paz e julgar as outras.

Acontece que eu cresci e essa hora de sexo virar beijo na boca nunca chegou pra mim. Sempre fui meio caretona, acabava tendo amor-de-pica e nossa, Deus sabe o quanto já chorei por ter me apaixonado por babaca que me comeu. Outras coisas aconteceram, como sair do armário (pra mim mesma. Quando notei que era bi, aos 16 anos, me reprimi porque estava cercada de religião por todos os lados e “a sociedade acha isso muito feio, Marta. Você vai sofrer muito se for lésbica”) e a vivência na internet, quando fui tão bombardeada que acabei indo amolecendo aos poucos.

Pertencer a uma cultura machista é viver uma auto-desconstrução diária. Lembro quando eu tuitei “Ai você quer ser feminista tudo bem, mas raspa as pernas pelo menos” e a Fabiane Lima respondeu “Pra ficar toda me coçando depois? Eu não!” e eu pensei “porra, é mesmo né? Isso não faz o menor sentido”. Homem ser peludo não é nojento. Por que deixamos uma marca (a Gilette no caso) nos influenciar tanto?

Finalmente percebi que não é tudo sobre sexo. Que mulheres não existem apenas para serem comidas, mas existem como pessoas que têm outros desejos e aspirações além de ter um homem. Que ninguém precisa ter um homem. Então, quando deixei de ser machista, comecei a ser mais vaidosa. Não havia mais perigo: eu estava fazendo por mim, de verdade. Pintar as unhas é divertido, quando tenho vontade. Maquiagem também. Mas não preciso fazer todo dia. Só quando eu quero.

Comecei a defender minhas colegas. Comecei a questionar o machismo dos caras. A brigar com eles quando eles estavam sendo babacas. A mostrar que não, mulher não tem de só ficar na cozinha não, que ela tem mais o que fazer que cuidar do cafezinho do amado. Finalmente virei “Marta, a feminista chata”. Porque me recusei a ficar calada. Porque cansei de ouvir e rir de piada machista. Porque aqui não vai desmerecer mulher nenhuma, não.

Os rapazes deixaram de me achar engraçadinha e começaram a reparar se eu estava por perto antes de falar alguma besteira. Episódios que antes eu achava naturais ou corriqueiros começaram a ter um peso imenso para mim, como assumirem que eu não programo hoje porque é “muito complicado” pra eu fazer ou me pedir para trazer o café ou esperar que eu lave a louça. “Mas você é a mulher da equipe, Marta” “E você me contratou para ser front-ender e não sua empregada”.

Hoje brigo, brigo muito. “Não pode, Marta, é feio”. Que pena. Feia, sempre fui.

Note: não estou culpando as mulheres que se comportam assim, mesmo porque fui uma delas. Só quero trazer a (auto) reflexão. Será que fazer parte do clube do bolinha a) é uma coisa real e b) é sequer uma coisa boa? Será que não estamos nos enganando para conseguir sobreviver em um ambiente hostil? E principalmente: será que devemos continuar aceitando isso?

Acho que não. É uma longa desconstrução. Nunca culpe uma mulher pelo machismo dela: ela está cercada disso por todos os lados, cresceu ouvindo as mesmas coisas, e demora para desconstruir. É um trabalho de formiguinha. Um dia a gente chega lá.

4 comments

  1. Eu aplaudo vc de pé. Pq é muito difícil ser ~a feminista chata. Noto as pessoas se afastando. Noto as pessoas revirando os olhos. Noto as meninas evitando dizer muita coisa, porque mddc a chata vai retrucar. Mas se é o preço para que as novas gerações não tenham que passar por isso, paciência. E força, pq as vezes a vontade é só concordar para ter menos dor de cabeça.

  2. Me identifiquei com você, as mulheres são machistas porque somos criadas por uma sociedade e com os valores machistas, no caso da Geisy Arruda minha primeira reação foi condená-la, só depois parei para pensar e vi o tamanho do absurdo do que fizeram com ela, e somente agora que tenho uma visão feminista consigo ver claramente as coisas como são. E sim somos chatas, não rimos de qq piada, enxergamos a falta de respeito em cenas “singelas” de novelas, filmes, propagandas, questionamos os padrões, enfim, não é fácil, mas é libertador.

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