Manda mais bad que tá poco (não)

Eu sinceramente acreditei que ia ser mais fácil lidar com a depressão em Santa Catarina, comparado a São Paulo. Não achei que ela fosse me deixar; mas achei que ela ia se dissolvendo aos poucos, como uma névoa, e ficar lá quietinha no canto dela mantida calma sob efeito de pouca sertralina e talvez nenhuma lamotrigina. Ilha da magia né. Trocar as marginais pelo mar, o trânsito por vinte minutos de ônibus, sair de um grande jornal para trabalhar em uma startup, etc.

Não foi isso que aconteceu. Aqui tive a pior crise depressiva desde o acidente.

A vida do lado de fora impacta o lado de dentro, e a gente fica desesperado procurando justificativas por estar se sentindo tão mal. Meu emprego estava mal. Meu marido, desempregado. Devendo muito dinheiro pro banco. Minha casa era temporária. Mas aí o lado de dentro piora o lado de fora. Não tinha libido. Não tinha energia. Só cansaço e sono e a certeza que queria morrer.

A diferença entre a primeira e as próximas crises de depressão é muito grande. Na primeira você não tem certeza de nada; a vida parece ter mudado e aquele novo estado, gosmento e cinza, é absoluto e infinito, como se as coisas sempre tivessem sido assim mas só agora você as enxergou como realmente são, e não o oposto. Depois de quatro anos com depressão, com idas e vindas de humor e remédios, quando bate a bad de novo você sabe o que esperar.

Isso não torna as coisas mais fáceis nem por um segundo.

A diferença é que você sabe que caiu na correnteza só por um momento, mas logo vai conseguir chegar em terra firme de novo. É só esperar um pouquinho e não fazer nada estúpido, como terminar um namoro, cortar o cabelo ou se jogar do viaduto, por mais vontade que dê, por mais óbvio que pareça que é a única opção.

Você prende a respiração e espera. O que na prática é chorar a madrugada inteira e o próximo dia inteiro e ir em modo zumbi para suas obrigações, se conseguir, e não fazer mais nada, e esperar acabar e querer morrer.

Mas você não morre. Porque é só seu cérebro meio gripado.

E quando o remédio finalmente faz efeito cai o estalo que você precisava, o galho para você se agarrar. Você percebe que estava comparando coisas erradas, que na verdade você é até ok e de repente aquela mão na cintura arrepia de novo e você tem muita vontade de transar, tipo, o tempo todo, e fica feliz por não ter feito nenhuma merda.

Pelo menos isso.

Mas se você fez alguma merda, também, tudo bem sabe. Você estava doente. É uma droga porque você vai precisar lidar com as consequências mesmo assim, mas você estava do-en-te. Acontece.

Sei que esse tema é um pouco recorrente por aqui, mas tô lendo A Redoma de Vidro, por indicação da Lec. Nunca vou escrever uma resenha melhor do que essa da Teoria Criativa. Leia a resenha antes do livro pois: triggers. E se você tem problemas com triggers, nem comece a leitura, porque aí você se apega à personagem e já era, precisa continuar lendo. E você se apega a ela muito rápido.

No mais, hoje estou bem melhor. O trabalho melhorou muito, mudamos para uma casa mais barata e “definitiva” (pelo menos não tenho prazo pra sair de lá), Eduardo fez várias entrevistas, dobrei o remédio e a libido voltou (uhul /o/). Mas é sempre importante lembrar que depressão é real, bipolaridade é real, que precisa de tratamento. O que não é real é como a vida parece de dentro dela – por mais que pareça.

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