Então eu comi frango.

Acho que para a maioria das pessoas, a frase “eu comi frango” não causa qualquer comoção. Só mais um dia comum, pode ser até um dia pior que os outros, sabe como é, o filé é mais barato, coisa e tal. Ou pode ser até bacana, almoço de domingo, maionese caseira, frangão de padaria. Mas eu, floquinho de neve que sou, tenho toda uma carga emocional ao fato que comi frango.

Quando pequena, eu ficava doente quase todas as semanas. Mas bem doente mesmo. Eu tinha febre, dor de garganta, dor de ouvido. Minha mãe, preocupada, me levou em todos os médicos que conseguiu pensar, inclusive — é claro — o otorrinolaringologista.

Eu lembro disso, eu devia ter uns cinco ou seis anos. Na minha memória, a sala de espera do otorrino era clara, cheia daquelas cadeirinhas de sala de espera, mas quando abria a porta do consultório lá dentro era tudo escuro. Só tinha uma luz forte (dessas de interrogatório) em cima de uma cadeira quadrada de ferro e, embaixo dessa cadeira, tinha um aparelho. Eu morria de medo de precisar usar o aparelho algum dia.

Até que o dia chegou. O moço pegou o aparelho e eu segurei a respiração. Era um “aspirador de ouvido”. Quando ele ligou aquilo e colocou no meu ouvido, entrei em desespero e comecei a chorar. Nem minha mãe nem o médico entenderam nada: “Mas não tá doendo… Por que você tá chorando?” e eu só chorava, apavorada.

Foi assim a vida até que fiz um tratamento com homeopatia. Tinha as bolinhas para tomar de tantas em tantas horas, minha mãe controlava com todo cuidado. Além das bolinhas, tinha também uma dieta rigorosa de investigação. A cada semana só podia comer determinados alimentos, temperos, sucos, etc. Assim, quando eu tivesse a dor de ouvido, a gente saberia o que causou.

Foi assim que peguei essa ojeriza por dietas e descobri que o que me dá alergia é frango. Na época, também tive por tomate, maçã e toda fruta cítrica.

De novo, eu tinha uns seis anos, então passei minha infância sem

  • coxinha
  • frango de padaria
  • maçã do amor
  • suco de laranja
  • ou maracujá
  • ou morango
  • ou qualquer outra fruta mais azedinha

O que foi tipo, super chato, mas ainda melhor que ter dores de ouvido que me obrigavam a tomar antibiótico toda semana e me fizeram perder parte da minha audição.

Desde então evito ao máximo comer frango porque já teve vez que um canapé de festa me deu febre, ou peru de natal, que não dava antes e agora começou a dar, e o remédio para cortar a infecção é um remédio de sapinho infantil ou… cand.. candidíase, ok? Ele trata a estomatite e cancela a febre.

Então vou eu bela e formosa na farmácia e falo “Oi bom dia, eu comi frango e estou com dor de ouvido e febre, será que você podia me ver esse remédio para candidíase?” e a atendente diz “Para beber ou creme vaginal?” e eu quero morrer toda vez.

Mas aqui no restaurante da firma tem bastantes opções com frango e toda vez eu fico babando porque a opção de carne é “bife na chapa” e as opções com frango são tipo “fricassé de frango” ou “escondidinho de frango” ou “frango à milanesa”. E teve um dia que eu tava muito brava e achei que merecia comer algo gostoso, então pedi o maior frango à milanesa que eles tinham e mandei bala.

Comprei o remédio e esperei. “Quando me der febre eu tomo e aguento uma semana de gripe, foda-se”.

E esperei. E passou três semanas e não tive reação nenhuma ainda.

E olha que depois de duas semanas eu fiquei “ué?” e tomei um suco de laranja mais azedo que eu acordando cedo domingo de manhã, o que geralmente já me desce rasgando a garganta e apitando o ouvido, e tive: nada.

Estou curada?

O frango catarina não tem o que o frango paulistano tinha pra me fazer mal?

Esses sprays que eu borrifo para energizar minha aura fizeram mais milagres do que eu esperava?

FOI TUDO EM VÃO?

Nunca saberemos.

Mas, a favor da ciência, semana que vem vou comer coxinha. Só pra testar se sarei mesmo. Vai que.

3 comments

  1. Marta, a vantagem de ficar velha é que você troca as alergias por outras, ou por intolerâncias, ou por problemas digestivos, kkk.
    Por isso acho que vale mesmo a pena você reavaliar suas alergias de tempos em tempos.
    Quando mais jovem eu era alérgica a frutas cítricas, gatos, certas fibras de tapetes e afins e a muitas outras coisas que nem sei direito porque naquela época nem se faziam muitos testes. Só sei que eu vivia com gripe, rinite, coceiras e febre.
    Agora estou com 48 anos, posso me entupir de limão e laranja e ter quantos gatos quiser, mas estou a cada dia mais intolerante à lactose, passo mal com frituras e não posso comer muito à noite porque me dá um refluxo tão forte que fico dias com dor de garganta.
    Ainda bem que até isso aparecer eu comi todas as frituras, queijos, pizzas, salgadinhos e porcarias que quis, hehehe.

    • Eu também estou cada vez mais intolerante a lactose. Acho bonito isso do corpo, sabe, ir mudando com a vida, com a gente. Acredito muito em doenças psicossomáticas e isso também explica. É bom variar, hehehe!

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