Conto – Vacina

Conto – Vacina

Acordei em uma enfermaria. Éramos oito, dez pacientes. Demorei para me recordar… Ah, sim, houve um acidente. Parece que caí na calçada, só algumas escoriações, e ninguém avisou que eu tenho convênio e que tenho direito a um quarto particular. Mas não tem problema; me sinto bem e os companheiros de quarto são gentis. Estamos todos quase recuperados, quase bem.

– Lucas! Sua vez.

Resignado, Lucas levanta da maca e caminha devagar em direção ao seu medicamento. Nós, que sobramos, continuamos conversando baixo.

– Você percebeu que hoje chamaram todos os negros da sala para tomar essa vacina?

– Bobagem. Coisa da sua cabeça. – respondi. Mas ao avaliar a sala, percebi que era verdade.

No dia seguinte, uma nova rodada de vacinas. Ninguém sabia para quê elas serviam. Eram doloridas, inflamavam. Algumas pessoas tinham a saúde ainda pior depois de tomar; outras não voltavam para o quarto.

– Marta.

Era meu nome. Minha vez. Levantei para aceitar minha medicação, mas um colega me segurou.

– Não vai. Estão matando a gente.

– Eu preciso saber o que está acontecendo.

Acompanhei a enfermeira até a sala de aplicações.

A sala de aplicações tinha três pessoas, duas macas e uma enfermeira manipulando a solução, mas tudo que consegui ver foi o aplicador da vacina: uma pequena pistola de pressão que me deu arrepios.

– Onde ela precisa ser injetada?

– No músculo da perna. Na sua perna que não machucou, porque ela pode causar um… desconforto.

“Desconforto” é a palavra que usam quando a injeção vai doer muito.

– Então… – tentei ganhar tempo, porque estava apavorada – Essa injeção é pro que mesmo?

– Para o fígado – a enfermeira respondeu baixinho, quase com vergonha.

– Fígado? Mas eu não machuquei o fígad–

– Vocês têm tratamento de primeiro mundo aqui no hospital público e acha que a gente consegue esse dinheiro da onde? A gente precisa da ajuda da indústria farmacêutica! É uma troca justa: vocês fazem os testes para receber o melhor tratamento.

Me debati, gritei, mas tinha outras duas pessoas sobre mim.

Acordei chutando o gato.

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