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Bem vindo ao DdB

Não é a primeira nem será a última vez que mudo a linha editorial do blog. Que mudo o blog todo. Mudo esse blog tantas vezes e tenho ele há tanto tempo que os posts com mais de 3 anos precisam de um aviso indicando que mudei de opinião. Mas gosto de manter o histórico. Acho que nossa história faz parte de quem a gente é. E por mais que me envergonhe de algumas opiniões que já expressei aqui, não vou apagar tudo. É muita história pra desapegar.

Porém, chegou mais um daqueles momentos que mudar é preciso. Eu mudei, o blog precisa acompanhar.

Já não tenho tempo para escrever posts grandes. Para esbravejar. Estou em uma fase de textos curtos, meio que sem começo nem fim. Por isso o nome “Diário de Bordo”. Para ser mais frequente, com textos menores, flashs da vida lá fora. Aqui fora. Enfim.

Mais uma vez, o Medium me motivou. Fiz um texto lá porque às vezes eu abro o notepad e escrevo qualquer coisa pelo dia só pra desabafar, e às vezes a coisa não cabe em um tweet ou não cabe no estilo do Facebook. Então publiquei um texto desses soltos lá. E fez muito sentido pra mim.

(“faz sentido” e “é uma provocação que eu trago” são jargões que peguei da firma aqui em Santa Catarina. Jargões que, agora, fazem sentido. Fica a provocação pra ver se serve pra ti).

Eu queria usar mais imagens e mais gifs, mas a verdade é

Pra ser sincera, deve ter outros blogs com esse nome, né? Espero que tudo bem eu ter um também.

No mais, tão empolgada com o tema :3

Enfim. Bem vindos. Vamos lá, juntos, falar bobagem mais uns anos.

Artrodese de tornozelo

Ontem fez dois anos da minha segunda operação no tornozelo. Quebrei o tálus em 2011, colocando dois parafusos, mas sentia muita dor até 2013, como uma faca entrando entre os ossos a cada passo. Deixei de ir almoçar com o pessoal, por exemplo, porque não aguentava andar até o restaurante. Precisei da ajuda de uma bengala. Enfim, estava difícil.

Voltando ao ortopedista, fiz exames e o tálus não estava recebendo irrigação sanguínea o suficiente. O osso estava necrosando e, a cada passo, eu pressionava meus nervos – por isso doía tanto. Tive duas opções: esperar o fluxo sanguíneo voltar à região, que poderia ou não acontecer, ou fazer uma artrodese de tornozelo.

A artrodese é a junção de uma articulação e pode ser feita em outras partes do corpo também. Portanto, ao fazer isso, eu não conseguiria mais mexer o tornozelo. Um ferro seria colocado na minha perna, outro entrando pelo calcanhar, formando um “L”. Isso me sustentaria, de forma a não pressionar mais o nervo, e eu sentiria menos dor.

Meu pé.

A photo posted by Marta Preuss (@mapreuss) on

Escolhi pela operação porque estava em um emprego estável, morando perto dos meus pais, parecia um bom momento.

A operação foi tranquila, fiquei poucos dias no hospital. O médico até queria me liberar antes, mas estava com bastante dor e não quis voltar. Fiquei três semanas sem poder colocar o pé no chão. Depois tiramos o gesso e aí, vacilante, comecei a dar os primeiros passos.

Meu dedão ficou muito sensível. Eu não conseguia dormir sem tylex e prebictal porque só do lençol passar nele era uma agonia terrível. Eu sentia umas cãimbras também, sem poder esticar o pé. Foi meio incômodo. Isso foi no inverno de 2013, que fez um tanto de frio, o que dá mais dor.

Meus primeiros passos foram difíceis. Tentava pisar na ponta do pé mas não tinha força o suficiente ainda. O pé ia pra frente, virado pra fora. Era meio engraçado. Fiquei com medo de andar daquele jeito pra sempre.

Fiz fisioterapia e novos exames e eventualmente o médico disse que ele fixou meu pé com um ângulo, e não reto, “já que mulher usa saltinho”. Fiquei muito, muito brava, porque ele fez isso sem me consultar. Eu já tinha uma perna maior que a outra, eu nunca usei saltinho nenhum, e ele assumiu, pelo meu gênero, que eu queria isso. Demorei mais de ano até achar um sapato com o ângulo correto, a altura de salto ideal. Mas comprar tênis, por exemplo, é um inferno.

Bem, hoje sinto menos dor, mas ainda a sensibilidade é meio esquisita. Sinto o nervo desde os parafusos na perna até o dedão. Meu pé aumentou um número, graças ao parafuso no calcanhar, e minha unha do dedão vive encravando.

Não consigo correr nem pular. Se eu fico em pé muito tempo (tipo, ontem teve uma festa e fiquei sei lá das 18h às 22h em pé), dói bastante. Hoje incha menos, mas no primeiro um ano inchava demais. Demais mesmo. Precisei voltar a usar meia de compressão. Eu consigo fazer yoga do meu jeitinho, rs, mas é bem ruim não conseguir ficar em pé com o pé retinho. Descer escadas também foi um desafio, mas hoje consigo um pouco melhor.

Precisei fazer nas circustâncias mas hoje me arrependo um pouco. Veja bem, o tornozelo dói menos: esse inverno que começou, que estou em Santa Catarina, está bem ok. O yoga aqui ajudou bastante. Mas entrei em contato com outras formas de ver o problema, a forma como seu corpo reflete as angústias da alma. Nesse sentido, e também se tivesse feito yoga antes, talvez não precisasse ter fixado a articulação.

Demorei dois anos para escrever esse texto porque não quis escrever antes de estar 100% curada. Daqui pra frente pode melhorar um pouco mas não deve mudar muito. Se você precisa fazer, vai dar tudo certo: consigo andar numa boa, fazer minhas coisas, vida segue. Mas se você tem opção, dá outra olhadinha. Toda articulação faz falta. E, claro, se você for mulher, lembre-se de comunicar ao seu médico se você quer ou não um “saltinho”.

Manda mais bad que tá poco (não)

Eu sinceramente acreditei que ia ser mais fácil lidar com a depressão em Santa Catarina, comparado a São Paulo. Não achei que ela fosse me deixar; mas achei que ela ia se dissolvendo aos poucos, como uma névoa, e ficar lá quietinha no canto dela mantida calma sob efeito de pouca sertralina e talvez nenhuma lamotrigina. Ilha da magia né. Trocar as marginais pelo mar, o trânsito por vinte minutos de ônibus, sair de um grande jornal para trabalhar em uma startup, etc.

Não foi isso que aconteceu. Aqui tive a pior crise depressiva desde o acidente.

A vida do lado de fora impacta o lado de dentro, e a gente fica desesperado procurando justificativas por estar se sentindo tão mal. Meu emprego estava mal. Meu marido, desempregado. Devendo muito dinheiro pro banco. Minha casa era temporária. Mas aí o lado de dentro piora o lado de fora. Não tinha libido. Não tinha energia. Só cansaço e sono e a certeza que queria morrer.

A diferença entre a primeira e as próximas crises de depressão é muito grande. Na primeira você não tem certeza de nada; a vida parece ter mudado e aquele novo estado, gosmento e cinza, é absoluto e infinito, como se as coisas sempre tivessem sido assim mas só agora você as enxergou como realmente são, e não o oposto. Depois de quatro anos com depressão, com idas e vindas de humor e remédios, quando bate a bad de novo você sabe o que esperar.

Isso não torna as coisas mais fáceis nem por um segundo.

A diferença é que você sabe que caiu na correnteza só por um momento, mas logo vai conseguir chegar em terra firme de novo. É só esperar um pouquinho e não fazer nada estúpido, como terminar um namoro, cortar o cabelo ou se jogar do viaduto, por mais vontade que dê, por mais óbvio que pareça que é a única opção.

Você prende a respiração e espera. O que na prática é chorar a madrugada inteira e o próximo dia inteiro e ir em modo zumbi para suas obrigações, se conseguir, e não fazer mais nada, e esperar acabar e querer morrer.

Mas você não morre. Porque é só seu cérebro meio gripado.

E quando o remédio finalmente faz efeito cai o estalo que você precisava, o galho para você se agarrar. Você percebe que estava comparando coisas erradas, que na verdade você é até ok e de repente aquela mão na cintura arrepia de novo e você tem muita vontade de transar, tipo, o tempo todo, e fica feliz por não ter feito nenhuma merda.

Pelo menos isso.

Mas se você fez alguma merda, também, tudo bem sabe. Você estava doente. É uma droga porque você vai precisar lidar com as consequências mesmo assim, mas você estava do-en-te. Acontece.

Sei que esse tema é um pouco recorrente por aqui, mas tô lendo A Redoma de Vidro, por indicação da Lec. Nunca vou escrever uma resenha melhor do que essa da Teoria Criativa. Leia a resenha antes do livro pois: triggers. E se você tem problemas com triggers, nem comece a leitura, porque aí você se apega à personagem e já era, precisa continuar lendo. E você se apega a ela muito rápido.

No mais, hoje estou bem melhor. O trabalho melhorou muito, mudamos para uma casa mais barata e “definitiva” (pelo menos não tenho prazo pra sair de lá), Eduardo fez várias entrevistas, dobrei o remédio e a libido voltou (uhul /o/). Mas é sempre importante lembrar que depressão é real, bipolaridade é real, que precisa de tratamento. O que não é real é como a vida parece de dentro dela – por mais que pareça.

Deu saudade de blog

Essa semana eu tava lendo o blog da Lec e um dos posts dela tinha a tag Rotaroots. Fiquei bem curiosa e, quando fui ver, era um esquema de rotatividade de blogs, hahah. Para quem não sabe, antigamente não tinha facebook, o orkut veio depois; a gente tinha salas de bate-papo, ICQ e MSN no máximo e isso era bem focado em pessoas, não em conteúdo. Então os grandes blogueiros da época (e alguns donos de template-shops) faziam isso de banner rotativo: você cadastrava o seu e colocava o “selo” no seu blog. Todos os outros blogueiros faziam igual. Então seu blog aparecia no deles, e o deles no seu, aleatoriamente.

A blogosfera e a internet evoluíram, naturalmente. Nossos blogs pararam de ser sobre nosso dia-a-dia, nosso diário virtual, nossas agendas cheias de clipes e papéis de bala, para falar de coisas sérias. Afinal, com uma quantidade absurda de gente escrevendo, claro que ia se sobressair quem tivesse conteúdo relevante. E a gente amadureceu, também. Claro que o que eu escrevo aqui não é o que eu escrevia no meu blog antigo. (Pagando mico pela nostalgia: http://marta.zip.net/)

(pausa por meia hora porque encontrei um fotolog antigo e fiquei aqui sendo nostálgica).

Enfim.

Houve uma época que tinha esse sentimento de superioridade de mudar a linha editorial do blog para falar de coisas importantes. Confesso que ainda tenho isso com o Medium. Quando vou falar de algo polêmico, profundo, escrevo lá. Como se eu tivesse algum tipo de vergonha de ser, bem, isso que eu sou a maior parte do tempo.

Na verdade, tenho. E não quero continuar tendo.

Nos últimos anos fiz um trabalho intenso de auto-aceitação e amor próprio na parte física. Hoje em dia, mais do que nunca, me acho a maior gata. Anos atrás, quando eu era magra, eu editei minha foto na praia. Esse ano postei com orgulho, me achando verdadeiramente maravilhosa, mesmo consciente que o padrão não é esse – isso só não me aflige mais.

E agora, afim de lidar com as minhas crises diárias de flashs vergonhosos do meu passado, preciso encarar quem eu sou e gostar do que vejo. Acho que tudo bem eu não ser intelectual, madura, adulta, bem-resolvida. Estou com 27 anos e ainda não conheço nenhum adulto que seja. Os que são, ou é uma máscara, ou em sua maioria perdem sua capacidade de se aperfeiçoar, acreditando que já “chegaram lá”.

Eu nunca quero chegar lá.

Então estou… não regredindo, mas assumindo quem nunca deixei de ser. E me divertindo. Porque blog é pra ser divertido, senão não faz muito sentido.

 Este post faz parte da blogagem coletiva do Rotaroots, um grupo de blogueiros saudosistas que resgata a velha e verdadeira paixão por manter seus diários virtuais. Quer participar? Então faça parte do nosso grupo no Facebook e inscreva-se no Rotation.

Estar vivo é ver gente morrer

Acho meio bobo, sim, ficar de luto por alguém icônico e tão distante quanto um ator, uma figura pública. Mas quando a gente transfere isso para um personagem tão presente, tão próximo das nossas vidas, me deixo emocionar. Leonard Nimoy, que interpretou o Senhor Spock em Jornada nas Estrelas, morreu ontem aos 83 anos de doença pulmonar obstrutiva crônica.

Antes de me julgar pelo textão porque o Spock morreu, saiba que até eu acho um pouco de exagero. Mas é uma pena. Star Trek é algo muito próximo da minha vida, primeiro pelo meu pai, depois por mim mesma e finalmente porque é algo que meu marido e eu temos em comum. Sempre achei Spock o que mais evidenciava o lado humano de Star Trek. Personagem incrível. Ainda estou à espera do primeiro contato.

Esse post, no entanto, não é para Nimoy. Temos vários posts por aí para falar dele. É para falar da morte.

Por um tempo eu fiquei BEM sensível ao falar de morte. Até hoje, na verdade, quando alguém na casa dos vinte morre eu fico bem abalada. Simplesmente porque poderia ter sido eu.

Eu já quase morri, e vocês sabem disso.

Quando você quase morre sua visão das coisas muda. Não é algo automático, não acontece quando você acorda. Na verdade, quando você acorda tudo parece uma droga. É com o passar do tempo que você percebe que as coisas ganharam uma camada extra de profundidade. Demora um tempo para absorver e saber lidar com essa nova camada (a terapia ajuda), mas depois você se pergunta como nunca tinha visto isso antes.

Não é mais triste pensar que, além do Nimoy, vou estar viva para ver várias outras pessoas que gosto falecerem. E vai ser uma droga, mas isso não me deixa desesperada ou triste por atecipação. De Star Trek mesmo ainda falta Kirk, Uhura, Chekov e Sulu. Mais um monte de outros artistas, como o Depeche Mode inteiro, o próprio Humberto Gessinger por exemplo. Isso é uma pena, mas é a vida, acontece.

O problema é que minha família também vai morrer. Em São Paulo. E eu em Santa Catarina.

Já quase perdi minha irmã duas vezes. Meu pai tem pânico de médicos e não faz um único exame há anos. Minha mãe se cuida melhor, mas tem problemas físicos como qualquer pessoa. Meus avós maternos estão velhinhos já. Os paternos já foram. Inclusive, da minha avó paterna não me despedi: ela faleceu em Santa Catarina, e eu estava em São Paulo. (curioso).

Fazer o quê, né? Uma das coisas que me fez vir é que mesmo se eu estivesse perto, não ia ter nada que eu ia poder fazer. Acho que é meio ruim porque parece que sua própria família é alguém distante como o Sr Spock. O que, estranhamente, aproxima o personagem da realidade.

suspiro

O problema da morte é quem fica.

Gatos yin-yang

As coisas são engraçadas, né. Há anos quero tatuar os 3 coraçõezinhos de vida que representam que eu já perdi uma vida, mas ainda tenho duas pela frente. Nunca fiz. Aí de repente faz uma semana que vi uma imagem e boom, ela tá no meu braço agora.

Quando a gente veio para Florianópolis, deixamos os gatos temporariamente em São Paulo, na casa dos meus pais. Eles viriam hoje para cá. Achei uma transportadora de animais que traz eles para cá com todo carinho e segurança que eles precisam em uma viagem tão longa, de umas 12h.

Aí o Spot tinha uma feridinha na orelha e pedi para levarem ao veterinário para conseguir um atestado para ele viajar. O médico disse que a ferida era de pulgas e deu um probiótico, porque ele estava com diarréia. O remédio deu reação e ele ficou sem comer, então foi internado para receber soro.

Na volta, a patinha veio com um curativo que ninguém explicou. Logo o curativo soltou pus, e meus pais viram que a patinha tava em carne viva. Então ele foi levado em outro médico, e tem sido realmente cuidado desde então.

Agora ele já está bem melhor, mas a patinha ainda não sarou e não quisemos arriscar trazê-los.

A Mel chegou a bater nele e sair correndo quando ele estava doente, então ela era um indicativo de como ele estava mal. Mas um dia minha irmã me mandou uma foto dos dois dormindo juntos, enrolados, em uma mesma cadeira. O que prova como ele está melhor agora 🙂

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Um amigo lembrou de uma imagem que era bem semelhante, os dois gatinhos enroscados. E aí ficou claro para mim: o yin-yang.

Nosso primeiro mês de Florianópolis foi bem complicado. Morar na casa de uma estranha. Problemas com a imobiliária de São Paulo. Não ter onde firmar o pé. Essas coisas me afastaram muito de mim e do Eduardo. Aí um dia resolvi voltar pro yoga e, logo depois da primeira aula, eu voltei para o meu centro, e voltei para ele. Eu era eu de novo.

O yoga faz isso comigo: me mostra pra mim. Me faz me amar como mais nada na vida jamais me fez. É uma terapia muito amorosa e gentil, de construção lenta mas prazerosa.

Além disso eu estava na vibe de entender o lado yin (leve, claro, branco, feminino, família, etc) e yang (negro, pesado, homem, chefe, etc) do meu corpo e da minha vida, para entender melhor as mensagens do meu subconsciente. Viagem? Não sei. Mas acho bacana dar uma chance para algo que possa me ajudar a me conhecer melhor e resolver minhas questões pendentes comigo mesma.

Então, pronto. Spot e Mel, yin-yang no braço direito. O yang voltado pra mim: meu lado interno, pesado, denso. Yin pra fora: meu lado vibrante, alegre, leve. A gente guarda os nossos demônios, afinal.

O serviço foi n’A Puta Calle. Lugar maneiro. Mandaram muito bem. E não me falaram que sou uma azeitona de Jesus, rs.

Primeiros quinze dias em Florianópolis

Quando falaram de coragem pra mudar, estavam falando sério: não é fácil. Você tem de desapegar de muita coisa. Você precisa ficar se lembrando que suas coisas, seus amigos e seus lugares favoritos não estão disponíveis porque não dá pra mudar de vida e ficar com as mesmas coisas da vida antiga. Precisa fazer uma escolha, e essa escolha foi feita lá atrás, então deixa o que ficou pra abrir espaço pro que vem.

Não ter casa foi meu maior problema, acho. Reflete uma falta de segurança muito grande. Ainda bem que encontramos um lar temporário (obrigada!), que tinha mais temperaturas no chuveiro (no hotel era inferno x alasca) e mais conforto na cama (no hotel as ripas de madeira me machucavam o quadril). Ficamos duas semanas: a passada e a próxima. Já estamos entregando os documentos para alugar nossa kitnet. Espero que aí eu me sinta mais segura, mesmo com os gatos ainda longe (não dá pra trazer ainda) e 90% das minhas coisas ainda em Diadema.

Uma coisa que eu aprendi esse ano é que a gente precisa de muito pouco pra viver. Aqui usamos 2 xícaras, 2 pratos, 1 faca, a cama, o chuveiro, a máquina de lavar e a internet. Semana que vem eu visito Diadema e vou dar uma boa olhada nas minhas coisas, pra doar uma parte. Sobre isso, li esse texto bem legal sobre comprar coisas.

A vida em Florianópolis é muito boa. Todo mundo foi simpático e gentil com a gente até agora. Meu trabalho ajudou muito, o pessoal é muito bacana, a empresa é incrível e todos foram muito gentis em sociabilizar com a gente (obrigada!) e fazer a gente ir perdendo o medo da cidade.

O clima tá bem quente e bem úmido, mas disseram que o inverno também é úmido, o que me dá esperanças de ser suportável (diferente de São Paulo). Não chove tanto quanto eu gostaria, mas tem umas tempestades às vezes e venta muito.

Muita gente reclama de ônibus e trânsito em Floripa. Já estive em algumas filas que andavam mais devagar, mas nenhum trânsito da Berrini, muito menos trânsito-da-Berrini-quando-chove. Também não peguei nenhum ônibus lotado; cheio sim, mas só não tinha onde sentar. E quando olhei pra fora, vi barquinhos, então ok estar em pé. As linhas de ônibus me confundiram no começo e não tem muita opção. Algumas linhas também demoram muito pra passar, tipo passam de hora em hora. O macete é olhar o horário que saiu do terminal e ir pro ponto só então.

Tu olha pra fora da janela do ônibus e vê barquinhos no mar ❤️ Foi isso que vim buscar ☺️

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Todos falam das maravilhas das praias da ilha da magia mas pra mim foram só… praias. A do Campeche não gostei: mar revolto, puxando, água gelada; chão instável, cheio de pedrinhas; demorado pra ir. Mas de Canasvieiras gostei muito: mar tranquilo, faixa de areia pequena, fácil e rápido pra ir (ou tive sorte), água na temperatura certa, areia fofinha. Tem mais um monte de praias pra conhecer. Sábado é nosso dia de praia. Saímos umas 15h de casa e pegamos o fim do dia. Ir pra praia é tipo pegar um ônibus municipal que iria, sei lá, do Jabaquara até o Tucuruvi talvez, e do Tucuruvi pegar uma van que anda mais uns 10, 15min.

Campeche

Uma foto publicada por Marta Preuss (@mapreuss) em

Quando a saudade de SP aperta (foi uma vez só), vamos no shopping. Tem dois aqui perto, o Beiramar e o Iguatemi. O Iguatemi é shopping de metido e não fomos lá ainda. O Beiramar é bem grande, tem bastante opção de comida e tem lojas de tudo.

Delivery é sofrido. Conseguimos pedir um lanche uma vez que demorou mais de hora; depois pedimos pizza e foi bem rápido e consegui pedir online (e tinha uma borda recheada com catupiry com alho, meu deus), mas não tem muita opção.

Fora do shopping e das praias a comida é MUITO barata. Lanches enormes a R$10, comida a quilo por R$20 e poucos, o lugar onde almoço vem um prato feito gigante (que EU preciso pedir meio) por R$19. Isso tudo no centro, não é longe não. Mercado chique tem o mesmo valor de mercado normal de SP. Mesmo se a firma não me pagasse almoço eu ainda economizaria muito.

Eu só tento me acostumar o mais rápido possível, sabe, aceitar as coisas como são aqui o mais rápido possível. Paulistano (homem branco) tem essa mania de querer colonizar o lugar que chegou, exigindo que seja tudo como ELE está acostumado, em vez de SE adaptar. Tomo cuidado para não cometer esse erro, e as coisas ficam mais fáceis e naturais.

Não me arrependo nenhum dia. Mas queria muito que as tretas da imobiliária de SP acabassem, e achar uma casa aqui que coubesse os gatos e trazê-los, com as minhas coisas, pra cá. Aí acho que ficaria livre para curtir melhor.

Retrospectiva 2014 – Livros

Acho que esse foi o ano que mais li na vida e é tudo culpa do Kindle. E mesmo assim poderia ter lido mais.

Foram mais de 40 livros,  7 coleções (e meia), 184 estrelas, 3 abandonos. Nada mal.

Auxiliada pelo meu Skoob, segue uma brevíssima resenha de cada um, dizendo minhas impressões deles. Espero que sirva para você bater o olho e descobrir alguma de suas próximas leituras 🙂 Eu gosto de ficção científica e futuro distópico, então desculpa se ficar redundante 😛

Quando eu digo “background” me refiro ao universo que a história foi criada e ao contexto do momento.

todos-os-livros

Abandonei

(não está na foto acima)

Para ler romances como um especialista (Thomas C. Foster) – na verdade ensina mais como escrever do que como ler. Ajudou muito e tudo, mas lá pelo meio ficou super chato e morri de tédio. Quando vi que tava enrolando demais pra ler, larguei pra priorizar outras coisas mais legais.

O Pacto Cassandra (Robert Ludlum) – nem lembro porque larguei, acho que era chato demais apenas.

Páginas do Futuro (vários autores) – só marquei como “abandonado” porque não li todos os contos, mas meu amigo Pôlo fez uma resenha em vídeo dos que ele (e eu) gostamos mais.

Livros soltos

O chamado do Cuco (Robert Galbraith) – Um romance investigativo muito envolvente. Comecei a ler em 2013 então não sei se conta? Enfim, pelo menos uma história que a Rowling conseguiiiiu escreveeeer sem ser Harry Potter nem ser um tormento de leitura.

Lugar nenhum (Neil Gaiman) – Um dos poucos que faltava do Gaiman pra eu ler, mas todo ano aparece um-livr0-antigo-do-Gaiman-que-eu-nunca-li. A fantasia mistura o real e imaginário como só Gaiman sabe fazer. É envolvente, divertido e rendeu uma ótima leitura.

Perdão, Leonard Peackock (Matthew Quick) – Esse perturbado do Quick não consegue fazer um livro com personagens normais. Depois de “O Lado bom da Vida” (não confundir com o filme que é raso e uma droga), ele agora traz um garoto retratando o dia do seu próprio aniversário e tentativa de suicídio. Leitura pesada, mas muito bem escrito. Quick vai desenrolando a história aos poucos, sempre em primeira pessoa, então você na verdade não quer saber o que vai acontecer, mas descobrir o que aconteceu pra chegar naquele ponto. Gosto muito dessa narrativa dele.

Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymour, Uma Apresentação (J. D. Salinger) – Foi o livro mais difícil de ler do ano. É uma linguagem diferente e muito interessante. Acho que por ser clássico tem essa diferença de jeitos de falar. É bacana, mas me gerou uma ressaca literária longa, acho que devido ao esforço (fico com vergonha de admitir isso porque apesar de ler muito, é tudo “blockbuster” rs)

Amadora (Ana Ferreira) – Um livro de s0ft porn, bem ruinzinho, que precisei ler pra sair da ressaca literária.

Palavra por palavra (Anne Lamott) – Livro que ensina a escrever com a história da escritora. Muito gostoso de ler, dá dicas ótimas.  Me inspirou a fazer várias crônicas aqui pro blog.

Hipersonia Crônica (Aline Valek) – Conto de ficção científica, universo alternativo, essas coisas. Bacana.

Alta fidelidade (Nick Hornby) – Odiei o livro, mas tenho de admitir que é muito bem escrito. Apenas saiu da minha zona de conforto. O personagem é um babaca, mas faz sentido na história ele ser um idiota, então fazer o quê? Mas li com raiva. Queria bater nele o tempo todo. Muita gente disse “A trilha do filme é ótima!” mas adivinha só: livro. não tem. trilha. sonora.

Colin Cosmo e os Supernaturalistas (Eoin Colfer) – Tinha lido esse livro faz tempo e reli agora. Envelheceu muito bem. Conta a história de um menino em um orfanato do futuro que consegue fugir de sua rotina de cobaia de laboratório e encontra um grupo de caçadores de coisas fantasmagóricas. Muito bacana, uma história bem legal.

Dádiva de Sangue (Sandro Moura) – Um conto medieval muito bacana.

Deixe a neve cair (John Green, Maureen Johnson e Lauren Myracle) – Só o último conto é meia-boca. Nos dois primeiros eu chorei. É bem adolescente, mas muito fofo. Ninguém morre de câncer.

Quarto (Emma Donoghue) – Mais um livro de um escritor perturbado, conta a história de um menino filho de uma vítima de sequestro quando completa cinco anos. Ele nunca viu nada fora do quarto e acreditava que as coisas da TV eram de mentira. Então a mãe bola um plano para conseguir sair do cativeiro. Muito pesado, porque é contado em primeira pessoa com a visão da criança. Mas muito bem escrito.

Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo (Benjamin Alire Sáenz) – Livro fofíssimo que conta a história de dois amigos que não têm muito em comum, mas acabam crescendo e se conhecendo juntos. Adorei.

Coleções

Acho bobagem falar de cada livro de uma trilogia, já que a maioria delas é uma história dividia. Mas aqui vão entrar também coleções de livros, que fogem desse padrão.

 As Peças Infernais (Cassanda Clare) [Anjo Mecânico, Príncipe Mecânico, Princesa Mecânica] – Quando me recomendaram essa trilogia me disseram “É adolescente, mas fazia tempo que um livro não me fazia sentir tanto”. De fato, Clare sabe fazer você ficar empolgado com o amor como se ainda tivesse quinze anos (se você tem quinze anos, largue tudo e vá ler essa trilogia agora). Além disso é um universo steampunk muito bacana e bastante feminista, então adorei.

The Hunger Games (Suzanne Collins) [Jogos Vorazes, Em Chamas, A Esperança] – A trilogia Jogos Vorazes ganhou o Troféu Marta Preuss de literatura 2014. Foram de longe minha favorita. As personagens, a história, o background, é tudo perfeito. E a adaptação para o cinema tem ficado muito boa: os filmes e livros se completam. Se você não leu ainda, leia. Sério.

Feios (Scott Westerfeld) [Feios, Perfeitos, Especiais, Extras] – Quando acabou Jogos Vorazes senti falta de outra trilogia assim. Já estava olhando a Feios fazia um tempo mas estava com medo de ser uma bosta. Não é uma bosta. O background é bom, a história é boa, é bem diferente de Jogos Vorazes apesar que podia coexistir, como se o mundo de Feios fosse a Capitol. Mas a personagem principal sempre precisa de um homem. O cara que ela tá afim é melhor, o amigo é melhor, todo homem é melhor e mais esperto que ela e ela entra em várias roubadas por ir atrás de homem. Isso me deixou meio meh. O quarto livro é uma história solta no mesmo universo, que traz uma temática importantíssima (como nossos minutos de fama poderiam influenciar uma sociedade), mas o irmão da protagonista é mais esperto que ela etc. É por isso que não queremos homens no clubinho feminista. Não basta botar uma mulher como personagem principal se ela vai ficar sempre em segundo lugar.

Divergent (Veronica Roth) [Divergente, Convergente, Insurgente] – Não vi esse filme, mas por favor parem de falar que isso é cópia de Jogos Vorazes porque meu Deus não tem nada a ver. Se vocês tivessem lido até o final saberiam disso. Muita gente fica brava com a personagem principal chamando ela de fraca no segundo livro, mas eu me identifiquei muito e me sentiria da mesma forma no lugar dela. É bem realista, tem um background muito bom porém mais potencial que resultado. Acho que falta um pouco do sentimento das Peças Infernais. É uma história bem contada, mas muito… mecânica, não sei.

Artemis Fowl (Eoin Colfer) [O menino prodígio do crime, Uma aventura no ártico, O código eterno, A vingança de Opala, A colônia perdida, O paradoxo do tempo, O complexo de Atlântida, O último guardião] – Bem, sem dúvida a coleção que me fez chegar a essa quantidade espantosa de livros lidos e o pior é que foi uma droga. Li os primeiros quando criança e saiu o último esses tempos, então fui reler e envelheceu muito mal na minha opinião. Mal escrito, falho, repetitivo. Apesar de ser uma coleção com histórias independentes, todas tem a mesma temática, os mesmos personagens, o mesmo inimigo. O pior é que teria muito potencial. O background é de criaturas élficas e míticas equipados com super tecnologia, e uma criança-prodígio como anti-herói. Não tinha como dar errado, mas acabou ficando forçado e cansativo. Acho que ainda serve para pessoas abaixo dos treze anos.

A Seleção (Kiera Cass) [A Seleção, A Elite, A Escolha] – Eu estava com muito medo de ser uma trilogia muito machista, mas como também era de futuro distópico dei uma chance e não me arrependi. A personagem principal é forte e crítica, quase uma Liz de Orgulho e Preconceito, porém cheia de defeitos e inseguranças. Uma pena Cass não ter dado mais foco no background, que parecia ter muito potencial. Como a história passa dentro do castelo, você não tem nenhuma ideia de como é o mundo lá fora. Pode ser que essa seja a ideia, se sentir como os ocupantes do castelo, mas ficamos com vontade de saber mais. Ainda assim, uma boa trilogia.

Fronteiras do Universo (Philip Pullman) [A bússola de ouro, A faca sutil, A luneta âmbar] – Já que reli uma coleção que não gostei, resolvi reler minha trilogia favorita da vida. Quando me perguntam meu livro favorito nunca exito em responder Fronteiras do Universo. É uma história espetacular, que começa em um mundo e passa por outros vários. Lyra é forte, teimosa e muito ingênua. Não gosto como ela fica depois que Will aparece, mas eles acabam encontrando equilíbrio e respeito. A história ainda desconstrói Deus, ciência e religião. É lindo. Envelheceu muito bem.

Odisseia Espacial (Arthur C. Clarke) [2001, 2010, 2061, 3001] – Da mesma forma que Fronteiras do Universo é minha trilogia favorita, 2001 é meu filme favorito. Arthur C. Clarke e Stanley Kubrik produziram o livro e o filme ao mesmo tempo, então uma coisa completa a outra. Eu tinha lido 2001 em inglês ano passado, mas reli esse ano para fechar a coleção de histórias independentes com o mesmo background. E que background! É sabido que Clarke conseguiu imaginar diversas coisas sobre o futuro e fez muita pesquisa para seus livros. Infelizmente não consegui terminar tudo esse ano, estou no 2061. Mas quem gosta de sci-fi não pode deixar de ler essa coleção. É espetacular. Muito profunda, cheia de detalhes e com bastante suspense.

Meta de leitura 2015

Não tem meta de leitura pra 2015. Espero ler muito e mais do que li esse ano. Tem algumas coisas na minha lista de “vou ler” e ganhei dois livros nesse final de ano. Além disso, preciso ler A Fundação de Asimov, porque quem gosta de sci-fi também não pode ficar sem isso.

Não leio tudo isso por obrigação ou para bater metas; mas quando um livro é bom, devoro. Deixo de almoçar, deixo de dormir, aproveito nas viagens de ônibus, acabo em três dias. Se a média fosse 5 dias por livro, teria lido muito mais esse ano. Mas claro que tem horas que cansa, que não tô afim. Normal.

Ainda mais ano que vem que vai ter tanta novidade. Vamos ver como vai ser. 🙂

Você gostou de algum da lista? O que pretende ler ano que vem? E o que mais gostou de ler em 2014?

Mudança: de casa, de estado, de vida

Desde quando saí da casa dos meus pais, pela quarta vez estou encaixotando meus livros e botando o pé na estrada. Em três anos. Morei em Santana, depois em Diadema, aí voltei para Santana e agora vou para Florianópolis.

Eu já estava infeliz no trabalho. Vi, meio sem querer, ou via twitter talvez, uma vaga para Santa Catarina que parecia ótima. Comida grátis, auxílio mudança, o mesmo valor que eu ganhava em São Paulo como PJ porém CLT. Eu tinha a maioria dos requisitos e a certeza de conseguir completar os outros com um pouco de tempo. Perguntei se o Eduardo queria se mudar para Floripa e ele topou.

Essa vaga fez mais do que me incentivar a mudar de estado. Aliás, eu tentava não pensar nisso. Tentava evitar pensar nas possibilidades enquanto não tinha ainda nenhum retorno. Deixei para a Marta do futuro se preocupar com a logística de uma mudança dessas. A Marta daquele momento, entretanto, percebeu que existia vida melhor lá fora. Condições decentes de trabalho, e não o pejotinha do dia-a-dia. Calhou da consultoria exigir conta pessoa jurídica para efetuar os pagamentos e não querer mais aceitar minha empresa micro-empreendedora individual. Somado a meses de insatisfação, pedi pra sair antes mesmo de ter algo sólido a vista.

O processo seletivo foi minucioso e lento. Preenchi formulários, conversei por skype, fiz um teste complicado, conversei com os programadores, conversei com os donos da empresa e finalmente me chamaram.

Me chamaram! Encontrei um emprego incrível! Vou ajudar a fazer aplicações para escolas, verificando quem precisa de ajuda e sugerindo opções de ação, algo que vai realmente ajudar pessoas, diretamente! Algo que venho buscando há anos, quando vi como era pequena e como me sentia inútil fazendo manutenção de site. E a comida é grátis, eu já disse isso? Tem auxílio mudança, auxílio curso e bichinhos de pelúcia pela startup. Parece ser fantástico! Claro, muito puxado também, mas com um resultado muito grande não só financeiro, mas pra alma também. É um alívio saber que posso ajudar pessoas fazendo o que eu faço.

Bem, então começamos a correria da mudança 2014 parte II. Fizemos um quadro branco, uma planilha no Google, um mapa marcado, procurando hotéis e repúblicas para os primeiros meses. Já estou com as caixas aqui para começar a empacotar tudo de novo. Eduardo foi ver os últimos detalhes em São José dos Campos. Tem uma despedida esse sábado, aí mudamos para a casa dos meus pais pelas próximas duas semanas e entregamos a chave do apartamento.

É meio triste porque todos os meus móveis grandes vão ficar. Não compensa levar, porque eu precisaria fazer duas mudanças: uma para Diadema, e outra para o sul. E são caras. Além disso, muitos dos apartamentos para alugar lá são mobiliados. Então vamos deixar tudo aqui, como pagamento da multa do contrato do aluguel.

Em geral, estou muito empolgada. Olho tudo aqui em São Paulo com olhos de desapego e despedida. Às vezes, dá até uma dorzinha. Quando a gente fala “Ah, a próxima vez que viermos neste bar– ah, é, isso vai demorar para acontecer”. Temos amigos em Floripa, mas vou morrer com a falta dos amigos de Sampa.

Preço a se pagar. E ainda bem que estamos no futuro, que hoje tem Skype, Facebook e tal. Dá pra acompanhar a vida, mesmo de longe.

Agora é tapar o nariz e mergulhar na água gelada. “Queria ter sua coragem”, me disseram. Não é uma questão de coragem, eu acho. É uma questão de fazer o que dá e torcer para que os tropeços não sejam muito doloridos, e tentar dar um jeito na situação, seja qual for. Estou indo esperando que precisarei de um tempo para me adaptar e não me cobrando como faria antes. Me sinto mais madura e forte; então acho que vai dar tudo certo.

A noiva que (quase) não surtou

Quase todo mundo que eu conheço que foi casar deu aquela surtadinha. Eu entendo: é muita coisa para planejar, muitos detalhes, muitas pessoas. Por mais que a noiva tente se convencer com o mantra “sempre vai ter alguém para falar mal e sempre vai ter alguém que esqueci de convidar”, a gente quer fazer o melhor possível. Para muitas de nós, foi ensinado que esse é o dia mais importante da vida da mulher. Que o casamento é um sonho a ser realizado e que o dia é o mais importante de todos. Seu dia de princesa.

(eu acho isso bem machista: homens não precisam casar. Ninguém cobra isso deles.  Acho que tem relação com o passado onde mulheres dependiam financeiramente de homens. Hoje em dia, graças a Deus, isso não é mais verdade. O comportamento continua entretanto, e, já que é uma festa, um sentimento tão bom, por que não?)

Desde cedo resolvi que não queria casar na igreja, salvo as épocas que eu fui religiosa (católica e evangélica), coisa que ocupou o final da minha adolescência. Quando conheci o Eduardo, então, isso foi confirmado: eu sou espírita e ele, ateu. Não tínhamos nada para fazer em uma igreja católica.

Além disso somos moderninhos e não dependemos de muitos dogmas. A gente ia fazer um churrasco para comemorar nossa união e fazer a despedida dele (que morava em São José dos Campos e mudou para São Paulo). Um dia fui para São José e a gente ia almoçar no nosso restaurante favorito, o Avelina. Então eu tive a ideia: pedir para fazer o evento lá, em vez de alugar um espaço aberto e um time para churrascar.

Isso foi uns três meses antes do evento. Decidimos que a data seria em outubro porque dia 10/10 completamos quatro anos juntos.

Na verdade não foi tão difícil assim imaginar e idealizar um almoço. No começo era só um almoço cada-um-paga-o-seu, que muitos dos meus amigos fizeram, sem presente. Depois (graças a Lec e a Paty) foi tomando forma: buquê, entrada, mestre de cerimônias, discurso, troca de alianças, bolo e bem-casado.

A parte que eu surtei foi quando fui lembrada que os amigos dos meus sogros tem dificuldade de entender esse conceito de cada-um-paga-o-seu. Então a gente precisava dar a festa. O dinheiro era uma preocupação (já que não tenho, risos), mas o pior é que eu não queria outro presente. Queria que a presença fosse o presente. Isso era muito importante pra mim. Eu moro sozinha há dois anos e nossa casa está montada: eu só queria o amorzinho mesmo.

Depois de muito atrito, cedi e combinamos que íamos dar a festa. Mesmo assim, não foi uma briga em vão: primeiro porque descobri que tenho várias amigas mulheres que são incríveis, coisa que eu não esperava ter um dia na vida. Segundo porque modelou minha relação com os pais do Eduardo e estamos bem melhores agora. A gente precisava aprender a lidar uns com os outros; até que o preço não foi tão alto afinal.

Então meus amigos foram ainda além e me deram o segundo presente intangível que poderiam dar, depois da festa: as fotos.

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Ainda não sei como agradecer por isso <3.

Resolvida essa parte, o resto fluiu. Comprei os doces na Gostoseria, da minha amiga Lilian – e foi a melhor escolha. Todo mundo elogiou. Nunca vi doces agradarem tantos paladares diferentes. O bolo deu certinho e chegou a faltar bem-casado, de tão maravilhoso que estava.

No dia eu estava super tranquila. Todo mundo estranhou:
– Está ansiosa Marta?
– Não, tô tranquila.
Isso se repetiu tantas vezes que acabei tuitando sobre o assunto:

E eu tinha razão em ficar calma: a festa foi maravilhosa, perfeita, melhor do que eu sempre sonhei. E aproveitei cada segundo dela.

Entrei com o tema de abertura de Star Trek: Next Generation, sendo levada pelo meu pai. Meu melhor amigo, Lucas, fez as vezes de mestre de cerimônias. Trocamos votos ao som de Inner Light, de um episódio emocionante de Star Trek, e acho que o Eduardo nunca vai me perdoar por isso, porque ele ficou muito emocionado.

Depois a gente almoçou e cortamos o bolo. Meus amigos ficaram até bem tarde e demos muita risada, batemos muito papo. Todo mundo adorou.

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A Deolinda, dona do Avelina, é tão maravilhosa que até carona pra casa a gente ganhou. Ela fez chá pros meus amigos. Mimou a gente. Foi espetacular.

Estou leve e feliz. Tudo valeu a pena: a distância, as mudanças de casa, as dificuldades. A festa abriu nosso casamento com chave de ouro. É o futuro vai ser ainda melhor.

Obrigada por todos que participaram disso com a gente: o dia era meu, mas sem vocês não teria a menor graça, não teria nem sentido. Desculpem a todos que não pude convidar, mas espero que a gente possa sair, tomar uma cerveja ou um café com vocês para bater papo e dar risada.

E filhos só daqui a quatro anos não adianta pedir obrigada de nada 😛

<3