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Manda mais bad que tá poco (não)

Eu sinceramente acreditei que ia ser mais fácil lidar com a depressão em Santa Catarina, comparado a São Paulo. Não achei que ela fosse me deixar; mas achei que ela ia se dissolvendo aos poucos, como uma névoa, e ficar lá quietinha no canto dela mantida calma sob efeito de pouca sertralina e talvez nenhuma lamotrigina. Ilha da magia né. Trocar as marginais pelo mar, o trânsito por vinte minutos de ônibus, sair de um grande jornal para trabalhar em uma startup, etc.

Não foi isso que aconteceu. Aqui tive a pior crise depressiva desde o acidente.

A vida do lado de fora impacta o lado de dentro, e a gente fica desesperado procurando justificativas por estar se sentindo tão mal. Meu emprego estava mal. Meu marido, desempregado. Devendo muito dinheiro pro banco. Minha casa era temporária. Mas aí o lado de dentro piora o lado de fora. Não tinha libido. Não tinha energia. Só cansaço e sono e a certeza que queria morrer.

A diferença entre a primeira e as próximas crises de depressão é muito grande. Na primeira você não tem certeza de nada; a vida parece ter mudado e aquele novo estado, gosmento e cinza, é absoluto e infinito, como se as coisas sempre tivessem sido assim mas só agora você as enxergou como realmente são, e não o oposto. Depois de quatro anos com depressão, com idas e vindas de humor e remédios, quando bate a bad de novo você sabe o que esperar.

Isso não torna as coisas mais fáceis nem por um segundo.

A diferença é que você sabe que caiu na correnteza só por um momento, mas logo vai conseguir chegar em terra firme de novo. É só esperar um pouquinho e não fazer nada estúpido, como terminar um namoro, cortar o cabelo ou se jogar do viaduto, por mais vontade que dê, por mais óbvio que pareça que é a única opção.

Você prende a respiração e espera. O que na prática é chorar a madrugada inteira e o próximo dia inteiro e ir em modo zumbi para suas obrigações, se conseguir, e não fazer mais nada, e esperar acabar e querer morrer.

Mas você não morre. Porque é só seu cérebro meio gripado.

E quando o remédio finalmente faz efeito cai o estalo que você precisava, o galho para você se agarrar. Você percebe que estava comparando coisas erradas, que na verdade você é até ok e de repente aquela mão na cintura arrepia de novo e você tem muita vontade de transar, tipo, o tempo todo, e fica feliz por não ter feito nenhuma merda.

Pelo menos isso.

Mas se você fez alguma merda, também, tudo bem sabe. Você estava doente. É uma droga porque você vai precisar lidar com as consequências mesmo assim, mas você estava do-en-te. Acontece.

Sei que esse tema é um pouco recorrente por aqui, mas tô lendo A Redoma de Vidro, por indicação da Lec. Nunca vou escrever uma resenha melhor do que essa da Teoria Criativa. Leia a resenha antes do livro pois: triggers. E se você tem problemas com triggers, nem comece a leitura, porque aí você se apega à personagem e já era, precisa continuar lendo. E você se apega a ela muito rápido.

No mais, hoje estou bem melhor. O trabalho melhorou muito, mudamos para uma casa mais barata e “definitiva” (pelo menos não tenho prazo pra sair de lá), Eduardo fez várias entrevistas, dobrei o remédio e a libido voltou (uhul /o/). Mas é sempre importante lembrar que depressão é real, bipolaridade é real, que precisa de tratamento. O que não é real é como a vida parece de dentro dela – por mais que pareça.

Viva seu luto

Comecei a fazer análise esse ano. Faz quatro anos que faço terapia “comum”, psicoterapia, mas esse ano comecei a fazer psicanálise. Está sendo um processo muito interessante, intenso e… doloroso.

A psicanalista fez um comparativo para me explicar a diferença entre os tratamentos. Se você vai ao médico porque rói unha, por exemplo. O psiquiatra vai te dar uma medicação para que você fique menos ansioso, e consequentemente roa menos unha. A psicoterapia vai te falar como é ruim roer unha, né, e as pessoas acham meio feio, então você não deveria roer unha, vamos parar de roer unha ok? E a psicanálise vai no fundo da questão, procurar por que você anda tão ansioso, para resolver isso e você parar de roer unha.

Parece lindo e maravilhoso, mas na prática é intenso, dolorido e bem efetivo. Eu já queria algo nesse sentido pra mim faz tempo: algo que me colocasse no controle de mim mesma, me entendesse profundamente e me ajudasse a evoluir emocionalmente. Nem o yoga nem a psicoterapia têm tanto poder disso quanto a análise.

(Ainda tomo remédios, mas meu psiquiatra está deixando beeeem a desejar então acho que vou trocar. Acho que minhas químicas estão todas fora de lugar.)

Enfim.

Nessas conversas com a analista ela foi me ensinando como a gente sente as dores errado. Digo, a gente sempre tenta afastar quando dói né? Quando você queima o dedo, antes de você saber que tá queimando você já contraiu o braço. Com dor emocional é a mesma coisa, principalmente com coisa que você acha meio boba. Por exemplo, se você foi ao banheiro da empresa e faltou água; e você teve de avisar pra todo mundo no chat que bem, algo deu errado; e você tem de subir escadas na frente de todo mundo com baldes de água para fazer as vezes da descarga. Isso tudo é só um grande “poxa, acontece. que bobagem ficar triste por isso. que besteira” e você ignora que aconteceu. Mas por dentro aquilo tem um peso enorme pra ti (digamos que você foi ensinada que não pode usar o banheiro fora de casa porque suas necessidades são as piores do mundo todo) que tu evita sentir. E depois volta tudo junto.

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A analista também me explicou que toda perda é uma dor. E perda não é sobre dinheiro ou mesmo oportunidades. Todas as vezes que você queria fazer uma coisa e não conseguiu, aquilo é uma perda: desde estar sem trocado pra comprar um bombom depois do almoço até a morte de um parente. Só que as pessoas de fora que mandam na sua tristeza. Se você perde um parente, que às vezes você nem gostava muito ou mesmo detestava, você TEM de ficar triste. E mesmo que você esteja na pior das TPMs e seu dia foi uma bosta, não poder comprar um bombom não justifica tristeza.

Acontece que as pessoas de fora não sabem nada sobre você. E elas estão erradas.

Então você precisa de um período de “luto” para todas as perdas que você tem, mesmo as que te dizem que são pequenas. Luto não de ficar de preto; luto de sentir aquela dor, aquela perda, falar sobre aquilo, esgotar toda a dor e seguir em frente.

A gente não faz isso. A gente diz “ok foi só uma besteira, deixa pra lá”. A gente precisa ser feliz o tempo inteiro: “não fica assim”, “isso passa”, “mas não foi nada”. Só que os lutos não sentidos vão se aglutinando dentro de ti, e você acaba tendo um coágulo, uma trombose de tristezas: a depressão.

(Nem sempre, mas) às vezes a depressão é uma dor enorme sem sentido porque todas aquelas pequenas dores se transformaram num grande monstro da dor e você já não sabe mais porque ele está ali, daonde ele veio, como que isso aconteceu.

Voltei a fazer terapia porque eu estava com flashs bem desconfortáveis. Eu tava de boas de repente lembrava de uma situação embaraçosa do passado. Aquilo fazia eu me sentir péssima, acabava com a minha auto-estima e eu continuava dizendo “pff que bobagem, Marta, faz anos isso” e eles continuavam voltando. Aí com essa conversa toda, fui instruida a curtir o meu luto. Cada vez que um flash voltava, eu sentia profundamente a dor que precisava sentir.

Fiquei duas semanas bem introspectiva, meio triste mesmo, mas senti. E foi se dissolvendo. E os flashs pararam de vir.

Mas aí veio o próximo desafio: sentir o luto no dia-a-dia.

Eu percebi que não tenho tempo pra isso.

Não dá pra você parar o trabalho e começar a sentir toda a tristeza e raiva e cobranças do dia. Você precisa deixar de lado e prestar atenção. Você precisa se concentrar. Você precisa fazer. Você precisa entregar resultados.

Isso porque eu moro em Florianópolis (apesar de, atipicamente, ter pego um freelance e o tempo tá bem puxado mesmo). Quando morava em SP, essa opressão é tremenda, porque além da cobrança ser maior, não tem um refúgio, a casa fica longe demais, é tudo cimento e trânsito.

Quando é que dá pra sofrer lutos tão grandes? Porque quanto mais o tempo passa, mais valor eu dou para os meus sofrimentos. Eles dóem mais, porque o dedo queima e eu deixo no fogo até a chama apagar, ou até o dedo acostumar com o calor (estou nessa fase. Acredito que no futuro vou ser capaz de apagar o fogo, talvez? Lidar com o fogo melhor? Puxar o dedo antes de queimar? Não sei).

Olhar pro mar me relaxa. Pé na areia também. Ver plantas, respirar ar puro. O yoga ajudou bastante. O exercício, a meditação, o carinho do relaxamento. Me emociono, várias vezes. De chorar de soluçar nas meditações guiadas.

Mas pra sentir o luto todo, bem, eu cheguei em casa e chorei, né. Chorei que só a porra essa semana. Chorei dos olhos ficarem inchados e senti, senti tudo que consegui.

Ajudou? Não sei.

Mas no dia seguinte eu levantei (sem conseguir abrir os olhos muito bem, rs) e segui em frente. Parece simples, parece o normal e o esperado, mas houve épocas que eu não conseguia fazer isso. Que o dia seguinte era uma continuação do grande pesadelo que foi o dia anterior. Que nada ia melhorar nunca mais.

Aos pouquinhos a gente vai se entendendo. Eu só queria compartilhar algo que a gente nunca dá muita atenção né. E faz muita diferença.

Boa sorte :).

O machismo interior

Dia 8 de março, dia da mulher, e como é de nossa tradição é hora de falar mais sobre isso aqui no blog. Esse ano eu estou com outro foco na cabeça. Já faz um tempo que venho pensando em escrever sobre isso, e hoje é o dia ideal.

Nunca fui a mais feminina das mulheres. Nunca gostei muito de boneca (Susi >>> Barbie), mas já ganhei patins, skate e bola de capotão de presente porque pedi. Usava roupa larga, falo mais palavrão que muito homem e sempre fui meio nerd. Desde pequena, não de mais velha. Na minha “cidade imaginária” eu chamava os Borgs de “bruxas” e, se eles me tocassem, eu viraria toda de metal.

Isso porque eu nunca fiz parte do padrão que se espera de uma mulher. Diferente da minha irmã, toda delicada, eu sempre fui mais gordinha e, claro, toda manchada né. A gente fez um teste para TV uma vez e eu sempre quis ser atriz. Mas só a Laís participou. O teste era caro e ela era a bonita. (não foi uma escolha da minha mãe, mas da entrevistadora). A Laís na verdade odeia público e é extremamente tímida como toda menina deve ser (e ao contrário de mim), então não deu certo.

Foi fácil começar a trabalhar com tecnologia. Eu tinha um computador em casa e um pai analista de sistemas, mais um monte de apostilas, muito tempo livre e uma paixão esquisita por blogs, já que sempre gostei de escrever. Tinha uma template shop aos 14 anos. Fiz dois anos de curso e queria ser designer, porque naquela época não existia front-end, mas no desenrolar da minha carreira descobri que gostava mesmo era do meio termo.

Logo nos primeiros anos eu trabalhei em agência. Numa pequena, do ABC, meu chefe me apresentou dizendo “Esta é a Marta, ela vai cuidar do seu projeto” e o cliente disse “Ela?!”. Essa época eu era faz-tudo, de atendimento a gerente de projetos, e ensinava HTML e PHP para um colega de faculdade que trabalhava comigo. A essa altura eu já sabia mais de PHP que meu chefe.

Depois, numa agência grande, é que as coisas realmente ficaram complicadas. O machismo no ambiente de trabalho é meio velado. Atendimento gata é burra. Então se eu fosse uma programadora meio feiosa, acho que tudo bem, né? Eu era mano. Aquela menina com zero sex appeal, que fala palavrão, é meio nerd e obviamente… machista.

Eu não sabia que era machista. Mas me sentia, de certa forma, superior a todas aquelas “meninas fúteis” que só falavam de cabelo, maquiagem, roupa e dietas. Na verdade me sentia péssima por não servir em nada disso; e mesmo que me esforçasse, nunca chegaria lá. Meus colegas namoravam meninas assim, e eu era sempre a solteira. Eu não entendia: como uma menina tão legal, tão inteligente quanto eu poderia continuar solteira, enquanto meus colegas namoravam as gatas-sem-conteúdo?

Cheguei à conclusão, nessa época, que tudo se resumia a: sexo. Conseguir alguém para transar era realmente importante para aquelas pessoas adultas (eu ainda não estava pronta para aquilo, mas um dia seria madura assim). As mulheres se arrumavam para sexo, e os homens corriam atrás delas por sexo, e se tudo se resumia a isso, então claro que as gatas precisam ser gatas, magras, bonitas, e também era claro que eu ia continuar solteira, apenas por escolher não ser assim.

O que me fez ainda mais machista. Para mim, quando a Geisy Arruda andou com aquele vestido, não foi porque ela quis, mas porque ela queria chamar atenção de homem. Quando minha colega de trabalho gata mostrou as amigas dela como um catálogo no Orkut (na época), era porque homens queriam comer mulheres. E assim que a banda tocava: mulher serve para dar. Homem serve para comer. Mulher quer chamar atenção de homem. E eu era superior a isso tudo, porque só queria viver minha vida em paz e julgar as outras.

Acontece que eu cresci e essa hora de sexo virar beijo na boca nunca chegou pra mim. Sempre fui meio caretona, acabava tendo amor-de-pica e nossa, Deus sabe o quanto já chorei por ter me apaixonado por babaca que me comeu. Outras coisas aconteceram, como sair do armário (pra mim mesma. Quando notei que era bi, aos 16 anos, me reprimi porque estava cercada de religião por todos os lados e “a sociedade acha isso muito feio, Marta. Você vai sofrer muito se for lésbica”) e a vivência na internet, quando fui tão bombardeada que acabei indo amolecendo aos poucos.

Pertencer a uma cultura machista é viver uma auto-desconstrução diária. Lembro quando eu tuitei “Ai você quer ser feminista tudo bem, mas raspa as pernas pelo menos” e a Fabiane Lima respondeu “Pra ficar toda me coçando depois? Eu não!” e eu pensei “porra, é mesmo né? Isso não faz o menor sentido”. Homem ser peludo não é nojento. Por que deixamos uma marca (a Gilette no caso) nos influenciar tanto?

Finalmente percebi que não é tudo sobre sexo. Que mulheres não existem apenas para serem comidas, mas existem como pessoas que têm outros desejos e aspirações além de ter um homem. Que ninguém precisa ter um homem. Então, quando deixei de ser machista, comecei a ser mais vaidosa. Não havia mais perigo: eu estava fazendo por mim, de verdade. Pintar as unhas é divertido, quando tenho vontade. Maquiagem também. Mas não preciso fazer todo dia. Só quando eu quero.

Comecei a defender minhas colegas. Comecei a questionar o machismo dos caras. A brigar com eles quando eles estavam sendo babacas. A mostrar que não, mulher não tem de só ficar na cozinha não, que ela tem mais o que fazer que cuidar do cafezinho do amado. Finalmente virei “Marta, a feminista chata”. Porque me recusei a ficar calada. Porque cansei de ouvir e rir de piada machista. Porque aqui não vai desmerecer mulher nenhuma, não.

Os rapazes deixaram de me achar engraçadinha e começaram a reparar se eu estava por perto antes de falar alguma besteira. Episódios que antes eu achava naturais ou corriqueiros começaram a ter um peso imenso para mim, como assumirem que eu não programo hoje porque é “muito complicado” pra eu fazer ou me pedir para trazer o café ou esperar que eu lave a louça. “Mas você é a mulher da equipe, Marta” “E você me contratou para ser front-ender e não sua empregada”.

Hoje brigo, brigo muito. “Não pode, Marta, é feio”. Que pena. Feia, sempre fui.

Note: não estou culpando as mulheres que se comportam assim, mesmo porque fui uma delas. Só quero trazer a (auto) reflexão. Será que fazer parte do clube do bolinha a) é uma coisa real e b) é sequer uma coisa boa? Será que não estamos nos enganando para conseguir sobreviver em um ambiente hostil? E principalmente: será que devemos continuar aceitando isso?

Acho que não. É uma longa desconstrução. Nunca culpe uma mulher pelo machismo dela: ela está cercada disso por todos os lados, cresceu ouvindo as mesmas coisas, e demora para desconstruir. É um trabalho de formiguinha. Um dia a gente chega lá.

Não, não é fácil andar de ônibus

Como vocês sabem, sou defensora ferrenha do transporte público. Além de um pânico pessoal com carros, acredito que o melhor para a cidade é usar o carro em situações excepcionais e não como primeira opção. Isso não me impediu de passar por uma situação muito desagradável no ônibus ontem.

Tenho trabalhado das 9 às 18h pois preciso chegar às 19h no curso de direção de arte. Antes eu fazia das 10h às 19h mais ou menos. O segundo horário é bem mais tranquilo, mais vazio. Peguei vans lotadas todos os dias. Na ida, ela fica cheia por uns 15, 20 minutos e depois dá pra sentar. Na volta, claro, ela enche cada vez mais até o ponto final e na maioria dos dias não consegui sentar nem quando peguei, muito menos depois.

Outra coisa que vocês sabem sobre mim, mas as outras pessoas não, é que eu não tenho tornozelo. Um deles é cheio de pinos e parafusos e hastes e não dobra. Na mesma perna tenho uma haste de titânio no fêmur inteiro. Quando esfria, quando chove, quando a amplitude térmica do dia é muito grande, eu sinto muita dor. Não tomo remédio faz tempo, mas meu tornozelo falha e eu posso cair. Então achei um lugar reservado num dia de dor e sentei. Acabei dormindo.

Acordo com gritaria. “Esse povo jovem que fica dormindo no preferencial! Finge que dorme para não levantar”. Acordada no susto, com fone de ouvido, não fiquei quieta desta vez: “Eu tô aqui porque tenho pinos no tornozelo e dói muito”. A galera insistiu: “Af. Se torceu o tornozelo, problema seu né? O acento ainda é do idoso” e eu gritei mais alto “Eu não TORCI o tornozelo. Eu tenho PINOS. Eu também tenho direito a esse lugar.”. A grosseria continuou “Tá, ela tem pinos mas e a mulher do lado?”. A mulher do lado acordou, tocou na senhora e disse “Cara… era só me acordar.”.

A mulher que estava gritando pelo direito da senhora falou “Que povo mal educado que usa esse lugar!” e a mulher do meu lado “Olha quem tá falando de educação. Pode sentar senhora.”

E a senhora, que também reclamou aos berros, disse: “Não quero mais. Já vou descer.”.

Vontade de mandar tomar no cu né. A pessoa reclama como se a gente nem tivesse lá (igualzinho como se fosse uma discussão de internet ou com a terceira pessoa longe), reclama dos argumentos e quando a gente cede ainda não tá bom.

Por favor não me entenda mal: eu obviamente defendo o uso consciente do preferencial. Mas minha situação me ensinou que nem todo mundo que está no preferencial é filho da puta. Sempre lembro da história de uma menina (amiga de amiga) que fazia um tratamento muito agressivo para uma doença. Tomava bolsas de sangue ou quimioterapia, não lembro. A menina não aparentava nada, mas estava fraca demais para viajar de pé no ônibus. Claro, era julgada pelo uso do preferencial.

Eu também entendo que a quantidade de filhos da puta é muitíssimo maior que a de inocentes. Mas eu tenho certeza que só teve o bafafá ontem porque nós duas éramos mulheres, já que todo mundo tem medo de homem. Também acredito que só pedir com educação resolva a maioria dos problemas. Não todos.

Apesar dessa desgraçada não ter cedido o lugar e destratar a senhora, acredito que a abordagem que a senhora tomou foi correta. Educada. Se a moça tivesse o direito ao preferencial, explicaria e certamente a senhora ganharia outro lugar não? A senhora até pergunta se ela é aleijada. Nesse caso a mulher era mal-educada e “estou com uma petição de cartório aqui” sugere elitismo.

Por essas e outras não adianta ficar esperando o ônibus se igualar ao seu carro porque ele não vai. Ainda vai ter outras pessoas. Ainda vai encher de vez em quando. Ainda vai demorar mais que seu carro e você vai precisar andar um pedaço. Não tem milagre. As pessoas invadem seu espaço pessoal sim. E você o delas.

Ainda assim é muito mais barato, mais seguro e agora (pelo menos em São Paulo) cada vez mais rápido. Com o bilhete único mensal, pago uma taxa e uso quantos ônibus (ou metrôs, pagando um pouco a mais) eu quiser por mês. Sem me preocupar com combustível, estacionamento, parcelas.

Você também acaba ganhando tempo, por um lado. Escrevi os textos de ontem e hoje no ônibus. A maior parte da minha leitura é no ônibus. Você descobre um espaço no seu dia para você.

Claro que episódios como o de ontem me deixam louca de raiva (ainda, quando desci do ônibus, cai no chão e affff chorei um tempão, de raiva mesmo.). Mas eu nem sei, nem quero aprender a dirigir. Acho bobagem. E que a gente tem mais é que lidar com as pessoas, fazer o quê.

Afinal, o coletivo exige um pouco de devoção.

Mudança de paradigmas pela publicidade

Estou fazendo um curso de Direção de Arte no Senac. Entrei porque achei que fosse me ajudar no design, mas obviamente é um curso de propaganda. O diretor de arte não faz o layout da peça, quem faz isso é o designer. O diretor de arte pensa no conceito da peça e imagina o que vai comunicar para conseguir vender um produto, uma marca, uma ideia.

Muitas vezes somos levados a refletir, durante o curso, o que a peça quis passar. “Por que essa peça passa confiança?” “Por que essa daqui foi feita para o público A/B?”. Sempre trabalhamos com a massa e com esteriótipos.

Bem, vocês me conhecem. Vocês sabem que não lido muito bem com esteriótipos. Não engulo que mulher é frágil, que homem poderoso precisa ter carrão e que nunca nessa vida negro só representa a classe C, D, E. Mas é assim que é e é assim que a publicidade rola, é assim que ela vende e atinge seu objetivo. Também é assim que as publicações, sejam quadrinhos, livros, filmes ou novelas por exemplo, escrevem seus roteiros: é isso que as pessoas querem ver, inconscientemente. É com isso que elas estão acostumadas. É isso que dá audiência – e que, portanto, vende.

Me deparei, então, com um paradoxo. Se a sociedade alimenta a publicidade e a publicidade enfatiza esses preconceitos na sociedade, como quebrar esse ciclo e fazer uma sociedade mais igualitária e menos preconceituosa?

A resposta do meu professor foi: “Isso não é problema nosso”. E eu fiquei “wat?” e ele completou: “Nossa missão [como publicitários] é vender. Não é mudar o mundo. A não ser que seja pedida uma campanha para mudar paradigmas. Mas por definição isso não é nosso foco.”

Aceitei a resposta na hora porque fez sentido, mas agora estou aqui pensado: se não é da publicidade, é de quem?

Eu entendo que “a mídia”, como entidade, não contempla apenas a publicidade. Mas toda a mídia tem a mesma função, não tem? Agradar para vender. Afinal, os canais de mídia são patrocinados pela publicidade. Se ninguém compra sua revista, menos vale seu anúncio é isso gera uma espiral de prejuízo. O conteúdo existe como suporte a publicidade.

A única coisa que eu consigo pensar que teria a função de mudar o mundo é a educação. Mas nosso sistema educacional (e não digo do Brasil mas da maior parte do mudo mesmo) não é nem de longe tão atrativo quanto a publicidade – justamente por não dar lucro, não vender.

As escolas particulares não estão, em sua maioria, interessadas em mudar valores apesar de, principalmente as de educação infantil, venderem isso ou até o oposto: vender valores tradicionais. Quando o aluno chega em uma idade crítica, quando ele tem capacidade para mudar algo em sua essência e com suas próprias mãos, a função da escola (particular, já que estamos falando de lucro) é aprovar no vestibular. Uma prova com cem questões que você só precisa acertar e mais nada.

Eu, vocês, nós temos a sorte de estar em um suporte que, às vezes, não precisa tanto assim da publicidade para existir. Este blog, por exemplo. Eu trabalho para outra empresa (essa sim, depende de publicidade) mas mantenho o blog sozinha e posso falar o que quiser: a audiência não é um problema porque se uma pessoa ou quarenta e cinco mil acessam meu blog, isso não muda em nada minha vida. Eu ainda vou levantar no dia seguinte e ir pra firma ficar 8h presa em um cubículo repetindo mais do mesmo, sem usar nem meu senso crítico nem minha criatividade pois não sou paga para isso.

Eu vi a internet mudando mais do que nós, mas pessoas como nossos pais, que têm preconceitos tão subjetivos que nem notam – e tudo bem, todos nós somos assim, todos temos algum preconceito (e não me venha com “not all men” porque se você acha que não tem nenhum preconceito, apenas não notou ele ainda. Inclusive sugiro que você aceite seus defeitos e se abra para eles, para poder melhorar).

A internet é um meio mais democrático porque a gente se mantém por fora e é apelativa porque o produto são nossas ideias, somos nós, e queremos ser aceitos e amados. Nos vendemos com afinco porque somos o melhor que temos e temos orgulho de nossas convicções.

Infelizmente, é um meio restrito. Precisa ler. Precisa ter um computador e energia e telefone. Isso tudo não é tão acessível quanto parece. E quem mais precisa, não tem tanto quanto nós, os privilegiados.

No fim, ainda não sei o que fazer para salvar o mundo das cáries. Penso em como eu mudei, como me conquistaram, mas não consigo reproduzir ainda. É muito difícil ter amor, carinho e um respeito didático com gente que a gente automaticamente considera babaca, como se tivesse nascido assim e fosse morrer assim, esquecendo que somos todos filhos do meio.

Não me entenda mal: para mim a publicidade é má e o mundo seria um lugar melhor sem ela. (Você consegue imaginar uma coisa dessas?). Mas agora vejo que a culpa e a responsabilidade não é só dela; e me sinto mais capaz de fazer algo para mudar esses paradigmas.

O que o feminismo fez por mim

A grande responsável pela minha educação foi minha mãe. Ela parou de trabalhar para cuidar das filhas, minha irmã mais nova e eu, principalmente porque eu era muito doente. Infelizmente a família da minha mãe não era tão instruída quanto eu tive a sorte de ser, e a cultura da família no geral é bem machista. Até hoje minha mãe, que voltou a trabalhar, se aposentou de vez com a desculpa “Olha só. Seu pai fica muito mais feliz quando estou em casa!”. Minha mãe ficou muito chateada quando saí de casa há dois anos, para ir morar com uma amiga – e eu sempre almejei minha independência. Agora, quando vou casar (com um homem), ela está super orgulhosa: finalmente saí da barra da saia dela, vou ser independente e cuidar de mim (?).

Não culpo minha mãe por nada disso, claro. É reflexo de toda uma vida ouvindo o mesmo discurso. Eu só tive a sorte de quebrar o ciclo e entrar em um contexto que me ensinasse a pensar diferente. De qualquer maneira, minha mãe foi a porta de entrada para tudo que me formou, inclusive o machismo.

Teve uma vez que minha irmã achou que estivesse grávida, aos 17. Foi um pandemônio em casa. “Por que não usou camisinha?” “Seu pai vai te matar!” “E agora? Sua vida acabou!”. Desesperada, minha irmãzinha veio me pedir conselho e chá de canela (dizem que é abortivo). O que eu fiz? Rechacei a menina. “Você fez, agora você cuide. Eu não vou incentivar você a fazer um aborto”.

Lembrei dessa conversa esses tempos, que minha irmã passou uma semana em casa, e disse que se fosse hoje respeitaria totalmente a opção dela: se ela quisesse ter o bebê, ia comprar de tudo para meu/a sobrinho/a. Se ela quisesse abortar, mas eu ia até o inferno achar uma clínica confiável e me endividava até a alma para pagar o procedimento. Note que, pessoalmente, eu jamais abortaria. Mas com o feminismo aprendi que escolha é dela. E ela precisa ser respeitada e apoiada seja qual for sua decisão.

É importante lembrar que eu não era como as outras crianças. Eu era doente, tinha uma perna maior que a outra e o rosto todo manchado, mas principalmente: eu gostava de atenção como toda criança, era ativa, participativa, inteligente. Mas não podia. “Você precisa ser humilde, Marta”.

Sempre fui mais gorda que a minha irmã. Sempre vi minha mãe preocupada com o peso, mesmo que ela nunca saísse dos 54kg. Sempre fui a gorda. A barriguda. A “veste uma manga Marta, que feios esses braços de fora, seus braços são manchados e gordos”. Sempre fui moleca, e ouvia muito “Não pode, Marta. Tem de se cuidar.”.

Minha auto-estima, é claro, foi massacrada antes mesmo de eu reconhecer meu “auto”. Eu tinha 13 anos. Estava deitada no chão do quintal de casa, pensando: “Pensando bem, é óbvio que o menino bonito da sala vai gostar da menina bonita da sala. E é óbvio que ele nunca vai gostar de mim. Olha só pra mim. Não sou nada parecida com ela.” Muitas vezes pensei que esse foi o começo da minha depressão, mas depois vi que isso é normal para a maioria das mulheres. A maioria lembra de quando deixou de se achar bonita.

Eu era bem machista, nem sabia o quanto. Engraçado, porque tive de lutar muito pelo meu espaço de programadora nas agências de publicidade; e mesmo assim xinguei a Geisi Arruda e mandei ela “se dar ao respeito”. E comparei gordas e magras, dizendo que era óbvio que qualquer um escolheria a magra. Xinguei tantas saias no umbigo. Me irritava mulheres femininas e gays afeminados, porque davam pinta, porque eram moles e fúteis. Eu achava que tudo acabava em sexo, e homem só ia querer um tipo de mulher.

Mesmo assim era estranho porque eu era a-mina-legal, a-brother, a-macho e mesmo assim continuava solteira. Eu aguentei tanta coisa, tanta piada, tanta nojeira, tanta coisa que eu não gostava (seriados de terror, filmes de bang-bang, esse tipo de coisa detestável) só para me encaixar.

Acredito que o feminismo vai ganhando espaço aos poucos, como peças de quebra-cabeça montadas por histórias, casos e depoimentos; no meu caso, acredito que a primeira grande mudança foi descobrir que eu era bissexual.

Foi quando eu parei de odiar mulher. Quando notei que na verdade, eu achava que elas eram atraentes e bonitas, e eu reprimia meu desejo em forma de raiva. Quando parei de odiar mulher, todas elas viraram minhas irmãs.

Aos poucos, minhas opiniões foram mudando e amadurecendo. Hoje acredito que mulher tem mais é que usar a roupa que quiser. Hoje abomino gordofobia. Hoje não julgo as escolhas da mulher, seja sobre aborto, sobre roupa, sobre peso, sobre filhos ou qualquer coisa. Hoje não odeio minhas irmãs nem sou mais homofóbica. Luto para que todas tenham oportunidades melhores e igualitárias. Hoje não olho estranho para as irmãs trans* e nem se quer tento mais adivinhar se uma pessoa é homem, mulher, cis ou trans*, simplesmente porque isso não é da minha conta e não diz nada sobre o caráter da pessoa.

Graças ao feminismo, hoje sou livre e bonita do jeitinho que eu sou.

Essa é a versão completa de um post coletivo proposto pelo Think Olga: Como o Feminismo Mudou sua Vida. Escrevi este calhamaço mas só podia enviar 750 caracteres (por isso tem uns pedacinhos iguais) mas achei importante publicar a versão inteira também.

Mais uma tentativa frustrada de dieta

Então que apesar de toda baboseira motivacional que eu posto no meu tumblr e do meu discurso de amor próprio eu estava me sentindo feia como todas as mulheres já se sentiram na vida, e talvez boa parte dos homens também. Então eu fui no médico.

Antes de fazer qualquer exame laboritorial a médica me passou uma dieta de 1200 calorias (o padrão para uma pessoa normal é 2000), cortando basicamente frituras e doces. Não parece nenhum fim do mundo, só uma mudança de hábitos.

Quando completei uma semana de dieta, fui fazer exames de sangue. Fiquei 12h sem comer. Aí minha pressão não voltou mais, ficou o dia todo 10/7 (o padrão é 12/8). Fiquei com tontura, aérea. Comer não ajudou. Quando fui pra casa, quase desmaiei na rua. Estranhos me ajudaram.

Na semana seguinte, a comida do trabalho me fez mal. Fiquei de sexta até quarta-feira zoada. Nada parava dentro de mim, fiquei fraca e tonta, com febre. Virose, sabe como é.

Quando vi os resultados dos meus exames, o TSH tava alto. O padrão é até 4 e o meu está em 7,5. Isso significa que minha tireóide não está trabalhando em seu inteiro potencial, meu metabolismo está lento e isso me ajuda a ganhar peso, ficar deprimida, sentir ansiedade, etc.

Aí eu desisti da dieta.

Aí eu me senti uma perdedora.

Porque afinal todo mundo diz que é só fechar a boca. Porque gente gorda não tem auto-controle. Porque é só fazer umas caminhadas que já ajuda. Porque, ironicamente, é pela minha saúde, mas eu só fiquei doente essas semanas – e só perdi peso quando fiquei realmente mal.

Então hoje eu li um texto muito bom que me fez pensar nisso tudo de novo – e mais.

Algumas coisas que não consigo esquecer a ponto de me dedicar a emagrecer são:

  • Eu nunca vou alcançar o padrão, mesmo se for magra, porque tenho defeitos que não posso arrumar.
  • Tanta gente passando fome no mundo e a gente que pode comer e tem dinheiro pra comer, não come.
  • Vendem coisas para eu comer para que eu fique insatisfeita e compre coisas para emagrecer.
  • Os padrões existem para baratear o custo de produção. Não é culpa de ninguém ter corpo diferente.
  • Quando eu era magra, já me achava gorda. Eu nunca vou ser magra o suficiente.

Mas eu nunca tinha pensado como a dieta e essa neura contribuem para que a gente não consiga se sentir plena. Livre. Sem comida, com fome o tempo todo, a serotonina cai, a gente fica mais triste, e consegue se concentrar menos. Então além de ser podada em nossos potenciais desde criança, tem também o fator físico. Todo mundo sabe que falta de comida abate um povo antes mesmo da luta.

Que forma mais fácil de abater um gênero?

De certa forma isso me libertou. Me tirou a culpa de ter falhado de novo. Me devolveu o alívio de comer o que quiser e não ficar 90% do dia pensando no quanto eu tô com fome. Me deixou com mais espaço para me divertir, para trabalhar, para criar.

Minha auto-estima estava péssima esses tempos e a terapeuta falou algo legal: não pense em você apenas como seu corpo. Seu corpo vai passar, mas você não. Você é inteligente, criativa, engraçada, responsável, boa no que faz. Isso não tem menos valor.

Com um pouco de scripts legais feitos no trabalho e elogios sobre meu senso de humor, me sinto mais confiante. É tão difícil, tão massacrante nadar contra a maré todos os dias. Eu acordo e penso “vamos ver quanto tempo até eu ouvir a primeira bobagem do dia”.

Mas vida que segue. Um dia de cada vez, um coração por vez, a gente muda o mundo e nossa visão de nós mesmas.

Polêmica!

Às vezes tô de boa na internet e nem falei nada demais aí alguém responde algum tuíte bobo meu com “POLÊMICA!!!!!”. Levando em consideração que o meme do mamilo/polêmica passou faz uns três anos, pode ser que essas pessoas realmente achem que eu esteja falado algo polêmico. Para mim é só mais uma coisa óbvia do dia a dia, então achei por bem fazer este guia prático de coisas não polêmicas e sua explicação básica. Espero que um dia seja impresso e entregue a todo comentarista de portal de notícias.

Pedofilia não é ok. Assim como sedução de incapaz, como doentes mentais. Não é certo seduzir ou abusar de uma pessoa que não tem discernimento para aceitar ou negar aquela situação. O abusador sabe o que está fazendo, mas o abusado mal consegue entender naquele momento que não só está sofrendo uma violência, como aquela violência vai marca-lo pelo resto da vida. As seqüelas sociais são um sem-número de terapia para superar um trauma e voltar a confiar nas pessoas. Abusar de um incapaz (e não tem outro nome senão “abusar” já que ele não pode consentir o ato por não entender do que se trata) é um dos piores crimes que se pode cometer.

Ser homossexual é tão normal quanto ser hétero. Tanto homem quanto mulher. Homossexuais apenas gostam de pessoas do mesmo sexo. Não são pedófilos, aidéticos nem abusadores. Se você considera um pecado, tudo bem, mas guarde para você. Ninguém escolhe ser homossexual, as pessoas nascem assim. Elas podem reprimir e ser infelizes para sempre, o que é um tipo de violência. Não faça isso com as pessoas, não obrigue que elas sejam como você acha certo se elas não estão fazendo mal para ninguém.

Nem todx trans* é prostituta ou gay. Não se identificar com o sexo que nasceu não é o mesmo que sentir atração por outra pessoa. Tenho amigas trans lésbicas, que são mulheres e gostam de mulheres. Ninguém “vira trans” porque gosta de alguém do mesmo sexo. E muitas trans* acabam na prostituição porque não tem oportunidade de estudar, se formar e trabalhar graças a todo preconceito que sofrem.

Não há nada que uma mulher não possa fazer. Ninguém “pede” para ser estuprada, muito menos pela roupa que usa. Ninguém tem de “se dar ao valor” e se reprimir a vida toda porque você acha FEIO. Não há vergonha nenhuma em fazer coisas “tipicamente” de mulher. Não há vergonha em ser mulher. Não existe algo tipo “mulheres e homens são diferentes e devem fazer coisas diferentes”, mas existem PESSOAS diferentes que devem fazer coisas diferentes e por isso tem espaço para todo mundo.

Não confunda suas crenças pessoais/religiosas com as leis de um país. Não é porque você não faria alguma coisa que todo mundo não pode fazer, por lei. O aborto é um bom exemplo: eu não faria, mas a mulher precisa ser livre e ter respaldo médico para abortar algo que mal existe, que não passa de um apinhado de células. Eu sou contra, minha religião é contra, mas eu não acho que deve existir uma lei contra.

Ser gordo não é problema de saúde. Não é desleixo, falta de amor próprio. Gordo não tem que “se cuidar” e emagrecer porque gordo se cuida, sim. Se ama, sim. São as roupas que estão erradas, o espaço no ônibus que não respeita as diferenças entre os corpos. Inventaram um padrão para baratear os custos de produção, o gordo não é culpado por isso.

Pode 100% negro e não pode 100% branco porque brancos são a classe dominante e não precisam de privilégios além do que já tem. Por isso que “orgulho hetero” não faz sentido, porque se você tem orgulho de fazer parte da classe dominante você é meio babaca. Na dúvida reveja seus privilégios. Homem, branco, hetero, cis, teísta são grupos dominantes da sociedade e grande coisa se você faz parte de algum deles. Mulher, negro, homossexual, trans e ateu por exemplo são grupos discriminados que são ignorados pela sociedade e por isso precisam de tratamento especial: como são Pre-julgados precisam de uma mãozinha para ficar em pé de igualdade com o grupo dominante.

Por este mesmo esquema de classes dominantes é que cotas e apoios sociais são necessários. Quando você é de algum dos grupos não-dominantes já começa qualquer coisa com dois pontos a menos que se fosse dos grupos dominantes.

Idosos, crianças, mulheres e deficientes têm preferencia sempre, seja no transporte público ou em uma situação de emergência. Primeiro cuide deles e depois corra você, porque suas pernas conseguem correr mais rápido que a deles.

Do outro lado do computador tem uma pessoa como você. Lembre-se disso e trate as pessoas direito na internet. E fora dela.

As pessoas são obrigadas a te aceitar como você é, mas você também tem de aceitar as pessoas como elas são. Não seja rude, agressivo, mal-educado e muito menos disfarce seus defeitos com virtudes, como quem é grosso e se diz sincero. Tem sempre um jeito amável de resolver a questão. As pessoas vão te ouvir melhor se você não for agressivo, mas explicar seu lado da questão.

Acho que é isso. Pra mim, tudo isso é óbvio hoje, mas levou alguns anos para ser. Irônico, né. Fico discutindo e batendo nas mesmas teclas porque se eu mudei meu jeito de pensar com anos e anos de argumentos, pode ser que mais pessoas vejam que estão sendo privilegiadas egoístas também.

Estrelas no chão

Apesar de sermos 75% água, termos vindo biologicamente da água, nascermos da água e termos meia-dúzia de deuses para a água, não conheço um único ser humano que goste de tomar chuva depois de um longo dia de trabalho, tentando voltar para casa ignorando o shreck-shreck das meias molhadas.

Isso é muito irônico, se você parar para pensar. Muita gente vive postando o quanto gosta de banho de chuva, essa coisa livre, clara, com uma menina bonita de vestido sorrindo com os cabelos longos escorrendo pelo rosto, chutando uma poça de pé descalço, achando graça da precipitação fluvial. Mas na vida real está escuro, frio, você lavou o cabelo ontem e vai precisar lavar hoje de novo porque a água é mais sujeira que alívio.

Alguns correm segurando bolsas que contém valiosos itens feitos de papel ou sílica, preenchidos por tinta ou energia, que a água estraga. Um planeta que é conhecido por “Planeta Água” e as pessoas confiam seus preciosos pensamentos e trabalho em coisas que estragam quando molhadas.

Você não deve ficar surpreso ao saber que eu não gosto de chuva também. Além dos exemplos que acometem todo ser humano, eu tenho um medo voraz de escorregar – principalmente nas escadarias do metrô ou atravessando a rua. Não consigo correr, nem andar muito depressa. A chuva é uma metáfora para as partes chatas do dia-a-dia: está acontecendo. Não posso fazer isso acabar logo. Paciência, e um passo após o outro.

Ainda assim, ao olhar para a calçada escura, os pingos que se esborrachavam no chão me fizeram sorrir: o reflexo da luz os fazia parecer estrelas cadentes, como se o céu estivesse literalmente caindo. Ou como se eu estivesse subindo, e estivesse no céu.

Pode ser que exista beleza em coisas que achamos ruins. Tem coisas que apenas acontecem e você precisa esperar terminar de acontecer: um rio que contorna um obstáculo.

Saber quando é hora de contornar a pedra ou estourar o dique é o grande xis da questão.

Talvez descriminalizar drogas seja… bom?

Antes eu ficava ~meio assim~ com legalização de drogas porque a substância altera a pessoa, de forma que ela possa vir a me fazer algum mal. Eu sempre soube que, com esse argumento, eu seria contra também a venda de álcool – mas no fundo, eu sou. Eu acho que se álcool fosse mais controlado (ainda), menos “acidentes” aconteceriam.

Mas todos sabemos que proibir álcool está fora de questão, então não posso usar o argumento “o drogado vai me roubar/bater” mesmo porque ele estará: nóia. Assim como o bêbado, mesmo que bêbados possam ter uma força considerável e, dado que não consigo correr, continuo com medo.

Os casos de sucesso lá fora são tímidos, mas o mundo não acabou porque a maconha foi liberada na Holanda e o Uruguai, além de dois estados dos Estados Unidos, fora alguns dos países da Europa (entre eles, Portugal, Espalha, Itália…) onde ela é descriminalizada. As pessoas não viraram zumbis e não ouvimos más histórias da Holanda, do tipo, “aquele bando de drogado holandês” e tal.

Isso tudo converte para a função social da criminalização das drogas, que marginaliza negros, pobres, mulheres grávidas e crianças pequenas para seu canto esquecido e cercado da cidade – que tem até nome. A Cracolândia, o bairro do problema, muda de lugar físico mas não de características. Tudo que vemos de esforços do governo para “resolver o problema” são medidas sanitaristas para livrar a cidade da visão feia dos trapos, peles, ossos e abandono.

Se fosse descriminalizada, quem seriam os chefes do tráfico, que matam e amedrontam, direta e indiretamente, milhares de famílias nas favelas dos grandes centros urbanos? Qual seria a desculpa para a brutalidade da polícia no morro?

Será que haveria uma desculpa?

Eu demorei anos e anos para ir lapidando minha opinião a esse respeito, mas conforme o tempo tem passado, começo a notar que os lados negativos da liberação da maconha são muito menores do que os positivos, em larga escala. Que o que me colocava contra era meu lado conservador e assustado, de achar que todo drogado vai me roubar, bater ou matar por uma pedra (o que pode acontecer, drogas liberadas ou não, por drogas ou por outra coisa), mesmo que alguns amigos próximos usem maconha regularmente e muitos se assustem de eu nunca ter sequer provado.

Já ouvi o famoso “bobagem, todo mundo já experimentou na vida”. Eu nunca experimentei, nem maconha, a não ser que tenham colocado em algum dos narguilês que eu já dividi – mas me lembro bem de ter fumado só a nicotina com gosto bom de menta e chocolate. Obviamente, também nunca experimentei nada mais pesado. Não tenho a menor vontade, já que não bebo e não fumo há três anos. Sou bem careta mesmo. Tinha de ficar me esforçando para não dar bronca em amigo que escondia cannabis embaixo do banco do carro.

Para os preocupados com a balbúrdia e o anarquismo, saibam que além da Holanda ser um exemplo não apenas pelos chocolates maravilhosos, o Uruguai não desaponta e tem educação de brotar elogios do Prof. Pasquale. Será que não estamos resistindo apenas pelos nossos moralismos pessoais?